Arquivo para Vinícius de Moraes

cinzas

Posted in canções fundamentais, Divã with tags , , , on 17/02/2012 by coelhoraposo

A “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”, canção composta por Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, situa-se na zona de transição entre o “o amor, o sorriso e a flor” da bossa nova e a urgência e a melancolia das canções de protesto. Composta pouco antes do golpe de 1964, ela fala do fim de festa, da tristeza que o fim do carnaval gera: o estado de euforia que logo se transforma nas cinzas do dia-a-dia.

Não foi à toa que esta foi a canção escolhida para abrir o primeiro álbum de Nara Leão, lançado logo após o golpe de 1964. Assim, a canção passou a ser utilizada como metáfora para o período de cinzas e tristeza que se instalara com a ditadura militar.

Mas era preciso cantar, era preciso cantar e alegrar a cidade…

* * *

Mas esta postagem em nada tem a ver com o carnaval ou com a ditadura militar. Esta postagem tem a ver com a canção de Carlinhos Lyra e Vinícius – especificamente a versão abaixo que está em O Poeta e O Violão (1975), de Toquinho e Vinícius; tem a ver com o turbilhão de sensações que toma o meu corpo e povoa minha memória ao escutá-la: amores do passado, amores do presente, alegrias, decepções, esperança e… vida.

E por falar em vida, vida que segue, afinal é preciso cantar. Sempre.

Bom carnaval e tod@s!

perfume do amor

Posted in apud, homenagens, musique non stop with tags , , , , on 09/02/2012 by coelhoraposo

Não é de hoje que falo da minha admiração por Alfredo José da Silva, ou simplesmente Johnny Alf (1929-2010). Registrei seus 80 anos em 2009 e incluí o fantástico Eu & a Bossa na lista dos álbuns que mudaram o meu mundo

Hoje acordei com Alf na cabeça, mais especificamente o pot-pourri de Vinícius de Moraes (“O grande amor/Valsa de Eurídice/Medo de amar”), que está logo abaixo.

Difícil não se emocionar.

Eu me emociono.

* * *

É claro que Johnny não só ouvia tudo isso. Ele cantava e reinventava toda a fossa à sua maneira. Uma maneira, digamos para simplificar, muito mais ao estilo Dick Farney do que ao estilo Nelson Gonçalves.

Sérgio Porto, fã declarado de Alf, me disse certa vez que toda a história da bossa nova começou com ele, a quem considerava o avô do movimento. Porque, segundo Sérgio, ele foi o pai dos pais da bossa, já que João Gilberto e Tom Jobim, além de Lyra, Menescal, Sérgio Ricardo e o próprio Vinícius sempre iam ouvir nas boates do Rio o toque e o canto “avançadíssimo” de Johnny.

Exagero ou não – e mesmo considerando, como eu, que a bossa nova nasceu da batida do violão de João Gilberto – Johnny é mesmo o legítimo titular de tantas originalidades. E por todas as razões. A começar pelo extraordinário legado de seus discos antológicos, realizados ao longo desses cinqüenta anos de carreira. Aliás, nem tantos assim como seu talento e criatividade deveriam merecer. E, finalmente, por sua monástica modéstia. Que, num país sempre ingrato com quem vale a pena de verdade, o fez esconder-se da fama que lhe é devida.

Hoje, Johnny Alf trabalha como há meio século. Compõe novas canções a cada dia, acumulando, ao que me disse há pouco, centenas de músicas inéditas. Que, no andar da carruagem pachorrenta deste país, só serão conhecidas pra valer nas próximas décadas.

Ricardo Cravo Albin

Fonte: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira