Arquivo para paixões

frito com banana

Posted in Divã with tags , , on 09/05/2011 by coelhoraposo

Semana passada acabou a porção que tinha de frito – uma espécie de paçoca de carne – que aprendi a gostar recentemente e que uma amiga me presenteou. Aquela combinação de farinha, carne seca e banana amassada me transportou imediatamente para os dias que passei no Recife. E com essas lembranças, veio também uma série de sensações, sentimentos e experiências que vivi por lá. Carnaval, amigos, música e diversão se misturando às minhas angústias, frustrações e buracos da alma.

Minha vida se baseia num constante movimento pendular entre a euforia e a melancolia. Entre o doce e o salgado. Tenho por hábito – um péssimo hábito, percebam – viver na fantasia. Na realidade, vivo de fantasia e acho que em certa medida, todos nós vivemos um pouco assim. E o que é mais doloroso é ter consciência de que isso não é saudável, não alimenta a alma: ao contrário, esse tipo de fantasia a corrói, transformando-nos escravos de um sentimento que nem sempre sabemos definir. Razão e emoção raramente andam juntas quando falamos de afeto. O problema é que quase nunca deixo a razão controlar todo o resto.

Com o fim da porção de frito, acabou também minha energia para continuar alimentando fantasias. O problema é que simplesmente ainda não consigo viver sem esta fantasia. Esta fantasia de estar com você.

novas aquisições para a discoteca

Posted in Genealogias de minhas paixões, musique non stop with tags , , , , , , , , , , on 16/09/2010 by coelhoraposo

A música brasileira por seus autores e intérpretes – Vols. 2 a 8

clique na imagem para ser direcionado para a loja virtual do SESC São Paulo

Alguns anos atrás fui a um show da Patife Band (banda liderada por Paulo Barnabé que fazia na década de 1980 um “punk dodecafônico”, se assim posso definir seu som) no SESC Pompéia. Após um espresso e um momento de pura tietagem com Tom Zé! (sim, ele estava lá para o show também), fui matar o tempo até o início do show no quiosque dos produtos com o selo SESCSP. Foi lá que comprei o primeiro volume desta coleção maravilhosa que tem os registros dos programas Ensaio e MPB Especial, da extinta TV Tupi e da TV Cultura, criados e dirigidos pelo produtor musical Fernando Faro. O primeiro volume contém 12 cd’s, cada um com uma entrevista intercalada com as músicas de um artista diferente, neste volume tem Adoniran Barbosa, Bucy Moreira, Carlos Lyra, Cartola, Ciro Monteiro, Conjunto Época de Ouro, Jackson do Pandeiro, João Pacífico, Joubert de Carvalho, Lupicínio Rodrigues, Mário Lago e Paraguassú.

Mas bom mesmo foi encontrar essa semana essa promoção na Loja Virtual do SESCSP: simplesmente os outros 7 volumes, com outros 88 programas, estão sendo vendidos por R$ 249,00!!! Com frete grátis para todo o Brasil. Para se ter uma ideia, cada CD sai por incríveis R$ 2,83. É um preço muito barato para um tesouro tão precioso!!! Quem gosta de música brasileira não pode perder esta oportunidade única. Segue a lista dos artistas entrevistados nos programas de Fernanado Faro que foram registrados nesta coleção:

Ademilde Fonseca, Alaíde Costa, Antônio Almeida, Antônio Nássara, Antônio Nóbrega, Antônio Rago, Aracy de Almeida, Baden Powell,Banda de Pífanos de Caruaru, Beth Carvalho, Billy Blanco, Blecaute, Canhoto da Paraíba, Carmélia Alves, Cascatinha & Inhana, Chico Buarque, Claudete Soares, Claudionor Cruz, Copinha, Dick Farney, Djalma Corrêa, Dominguinhos, Dorival Caymmi, Elton Medeiros, Fagner, Fátima Guedes, Geraldo Filme, Germano Mathias, Mestre Ambrósio, Guilherme de Brito, Guinga, Henricão, Henrique Cazes, Hermeto Pascoal, Hervê Cordovil, Inezita Barroso, Isaura Garcia, Ismael Silva, Ivan Lins, Ivone Lara, João de Barro (Braguinha), João do Vale, João Nogueira, Joel de Almeida, Johnny Alf, Kleiton & Kledir, Lúcio Alves, Lúcio Cardim, Luiz Gonzaga Júnior, Luiz Vieira, Manezinho Araújo, Mauro Duarte e Noca da Portela, Mestre Marçal, MPB-4, Nana Caymmi, Nara Leão, Nei Lopes, Nelson Cavaquinho, Nelson Gonçalves, Newton Teixeira, Nora Ney, Orlando Silva, Otacílio Batista, Diniz Vitorino, Paulinho da Viola e Os Quatro Crioulos, Paulo Soledade, Paulo Vanzolini, Pedro Caetano, Pena Branca e Xavantinho, Quinteto Violado, Raphael Rabello, Renato Borghetti, Roberto Corrêa, Roberto Luna, Roberto Martins, Roberto Menescal, Roberto Paiva, Roberto Ribeiro, Roberto Silva, Sá & Guarabyra, Sambas da Bahia, Sérgio Ricardo, Sílvio Caldas, Taiguara, Tito Madi, Tonico e Tinoco, Zé Ketti, Zé Menezes e Zimbo Trio.

Para quem se interessar, a Gravadora Trama e a própria TV Cultura lançaram alguns destes programas em DVD. Eu só quero saber quando vão lançar o programa que tem a entrevista de Walter Franco, o que nos leva à segunda nova aquisição para a discoteca…

Vela Aberta, 1980 – Walter Franco

clique na imagem para ser direcionado para o site da Livraria Cultura

Ontem fui conhecer a Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, tinha que comprar um presente de aniversário para uma amiga e como só sei comprar discos e livros para os amigos, a escolha do local era óbvia. Enquanto estava ao telefone com a japonesa mais amazônica que há, chère Lisa, rodei a livraria atrás de algo, que logo encontrei, mas no caminho do caixa me deparo com a seção de discos, mais especificamente com expositores contendo a novíssima Coleção Cultura, projeto encabeçado por aquele responsável por tornar acessível álbuns mais do que fundamentais da música brasileira e que permaneciam esquecidos há décadas: Charles Gavin (que, para quem não sabe, é o ex-baterista do Titãs). Não tive dúvidas em comprar este que é o quarto álbum do meu mestre maior. Reedição caprichada, mais uma aquisição fundamental para a minha discoteca. Em vinil eu já tinha (relançado por Carlos Calanca através de seu maravilhoso selo Baratos Afins), agora em CD posso apreciar mais essa jóia de Walter Franco.

Deixo vocês com o texto de apresentação do álbum, por Charles Gavin:

A música de Walter Franco apresenta, desde seu primeiro disco de 1972, uma mistura ácida de rock and roll, MPB, poesia, atitude e experimentalismo. Em 1979, embalado pela repercussão da performance de Canalha no Festival da Canção da TV Tupi, o artista se trancou em estúdio para gravar o álbum mais pop e acessível de sua carreira. No repertório do novo disco se destacavam, além da própria Canalha, várias pérolas do cantor e compositor paulistano, como a Vela aberta, canção-título do LP, e as releituras de Feito gente e Me deixe mudo, clássicos de sua carreira, registrados anteriormente em Revolver, de 1975.

walter franco: muito tudo

Posted in Genealogias de minhas paixões, homenagens, musique non stop with tags , , on 10/09/2010 by coelhoraposo

Numa bela noite de domingo, assistindo ao programa Curta-Brasil, da TV Nacional apresentado por Ivana Bentes, vi Muito Tudo, curta-metragem de Bel Bechara e Sandro Serpa de 2000. O filme me apresentou à obra de Walter Franco, gênio maior da minha discoteca. Poucos meses depois encontrei a reedição de seus dois primeiros álbuns na Série Dois Momentos, projeto dirigido por Charles Gavin que buscava resgatar clássicos da música brasileira nunca editados em CD.

Minha vida mudou. Para sempre.

mantra

Posted in Genealogias de minhas paixões, musique non stop with tags , , , , on 10/09/2010 by coelhoraposo

Tudo é uma questão de manter

A mente quieta

A espinha ereta

E o coração tranquilo

Coração Tranquilo (Walter Franco)

da série “cartas não enviadas” – II

Posted in Cartas não enviadas with tags , , on 08/09/2010 by coelhoraposo

Ao som de Cat Stevens

Cara Xxxxxxxxx,

Sou alguém que não consegue viver sem amores impossíveis. Me alimento da fantasia, de um tipo ideal de amor que não existe. Masoquismo, pode ser. Mas é este tipo de paixão delirante que me move. Sou um romântico, com tudo o que de negativo isso possa trazer. Não sei quanto a você mas acredito no encantamento. E acreditar no encantamento hoje em dia me coloca numa posição de inferioridade perante um mundo tão desencantado e cínico.

Quando a reencontrei depois de tanto tempo, fui nutrindo um desejo intenso de ter você ao meu lado. Sempre. O medo, a ansiedade, a espera, os desencontros, os encontros sempre atropelados pelas circunstâncias do momento, a dúvida… Todas essas coisas ao invés de me afastarem de você, me aproximaram ainda mais desse incipiente sentimento confuso que aos poucos tomou conta de mim. Passei a criar um mundo em que você fazia parte, comigo. E a certeza da incerteza sobre o que poderias sentir por mim me angustia, me mata.

Todos os encontros planejados por mim viraram poeira e essa poeira poluiu meu coração de tal maneira que não sei mais o que sinto: é amor? Mas o que é o amor senão um sentimento construído socialmente ao longo dos séculos? Ao menos o amor romântico que tanto foi cantado em prosa e verso por Goethes, Baudelaires, Rilkes, Florbelas, Pessôas… Não sou poeta, não tenho capacidade para tal, mas os invejo. Os invejo porque eles conseguem colocar no papel tudo aquilo que algum dia gostaria de falar para você. Sabendo de tudo isso, seria temerário dizer “eu te amo”? Muito provavelmente sim, no mínimo infantil. Mas essa infantilidade me é muito reconfortante.

Assim como foi reconfortante mandar flores para você. Me fez muito bem, me senti agente dentro da minha vida, tomar atitudes. É claro que o momento não foi o melhor (tenho um péssimo timing), mas o carinho que quis transmitir foi, antes de mais nada, um carinho genuíno de alguém que realmente gosta de você, mesmo sem saber bem o porquê. Mesmo sem saber como o receberia. A alegria é contagiante e a dor, contagiosa, infelizmente é assim esse mundo: quero deixar claro que, independentemente de qualquer coisa, tentei me mostrar solidário.

Como falei no início, me alimento de fantasias. E com você – ou com a ideia que faço de você – sonho acordado, passo as horas esperando por você, mas você não vem. Sou um apaixonado por pequenos prazeres e quero compartilhá-los contigo. Se tivesse algo que eu pudesse dizer que foi o que me encantou em você foi sua dignidade, olho para você e vejo uma mulher forte, sensível, atrelada aos seus sonhos de maneira cativante. Objetiva, mas sensível. Aparência frágil, mas forte como um búfalo por dentro. Queria agora tocar seu rosto, acariciar seus curtos cabelos, beijar seus lábios e perguntar: posso fazer parte da sua vida?

Mas ao mesmo tempo em que penso e digo que estou completamente apaixonado, uma parte dentro de mim diz outra coisa: a razão diz que tudo isso não passa de um delírio de um eterno garoto à espera de algo que não existe. Todo relacionamento é uma via de mão dupla e quando comecei a sentir que essa via só tem um sentido – de mim para você e nunca o contrário – resolvi me afastar, porque esta é única maneira possível que consigo encontrar para não sofrer por este delírio que, com o tempo, percebo que realmente não passa de um delirio porque sinto que não tenho espaço em sua vida. Ao menos não como eu gostaria que tivesse.

Talvez você leia isto algum dia, talvez não. Mas não me importo mais. Se algum dia nossos caminhos se cruzarem novamente – e secretamente torcerei para isso – o destino nos dirá o que fazer. Dito isto, dito está, “that’s just another case of common uncommunicability, and life goes on in such a lonely way…” *

Uma catarata de beijos,

Thiago

* trecho de “Common Uncommunicability”, de Maurício Pereira. Faixa 13 do álbum “Música Serve Pra Isso”, de Os Mulheres Negras. Ouça aqui.

weekendings

Posted in vomitando palavras with tags , , , , , , on 06/09/2010 by coelhoraposo

– As coisas em casa estão cada vez mais insustentáveis, sofro bastante por isso. Mas não consigo visualizar um cenário em que as coisas se resolvam. Não tenho força, serenidade ou fibra sufucientes para encontrar uma solução pacífica para o impasse doméstico-afetivo. Eu sinceramente me considero alguém compreensivo e afetuoso. Mas infelizmente não neste caso, não vou ser um cretino e jogar a culpa do caos familiar nos outros, tenho no mínimo metade da responsabilidade, mas o convívio mãe e filho hoje é uma fantasia que precisa ser desfeita. Agora só ajuda profissional. Talvez só a distância para colocar as coisas em perspectiva e – num futuro próximo – estabelecer uma relação madura e saudável. Hoje só há dor, desamor, incompreensão mútua e loucura.

– Realmente o amor é um fato social, dos mais perversos. E esse meu masoquismo precisa acabar já. Quando se percebe que a balança está desequilibrada só há uma solução: desintoxicar-se desse sentimento que supostamente é paixão. Podiam abrir clínicas de reabilitação para pessoas que precisam esquecer pessoas (sim! Como em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”). Preciso aprender a não me deixar levar tanto por fantasias e delírios amorosos…

– Decidi me desligar um pouco do mundo das festividades e me afastar um pouco do mundo social. Primeira medida: deletar Facebook e Twitter do BlackBerry e atualizá-los esporadicamente. Em tempos de internet, o melhor ansiolítico é se desapegar de redes sociais. Eu, pelo menos, perco muita energia vital nisso tudo. Definitivamente, it’s better to burn out than to fade away…

– Antonio Nóbrega foi um show fantástico, nunca tinha visto nenhuma apresentação dele. O cara realmente é genial.Viva Ariano Suassuna que o apadrinhou ainda na década de 1970 através do Movimento Armorial, que buscava as raízes mais prifundas da cultura nordestina.

– Realmente fiquei encantado com o som M O N U M E N T A L de Goran Bregovic & The Weddings and Funerals Orchestra, como dito no post anterior.

Mas no final das contas, o saldo foi super positivo: um fim de semana libertador!

no tabuleiro dos baianos

Posted in Genealogias de minhas paixões, musique non stop with tags , , on 22/07/2010 by coelhoraposo

Hoje acordei com o desejo de ouvir Amoroso/Brasil, de João Gilberto. Assim republico post do antigo blog sobre um dos álbuns que nunca me cansam! Quem quiser escutá-lo, aqui!

João Gilberto – Amoroso/Brasil

Alguns álbuns são bons, outros são bons e importantes, outros são geniais e revolucionários. Estes dois álbuns de João Gilberto (relançados num único disco) não se encaixam em nenhuma das categorias acima pelo simples fato de serem geniais por serem… simples. O minimalismo de João Gilberto encontro a pompa dos arranjos de Claus Ogerman (no caso de Amoroso, de 1976) e, como numa simbiose perfeita, criam uma sonoridade que beira à perfeição. E ter João Gilberto cantando em italiano, espanhol, inglês com aquele sotaque preguiçoso típico de sua baianidade que transforma o “mucho” e “muintcho, é impagável.

Quanto a Brasil, de 1981, João Gilberto se encontra com a geração (Caetano, Gil e Bethânia) que seguiu os caminhos abertos por ele e desse encontro surgiu um álbum-homenagem a música brasileira.

Enfim, Amoroso/Brasil é um álbum de standards da música mundial. E ninguém melhor que João para transformá-los em canções regionalmente universais.

Publicado originalmente em http://loveonmyterms.blogspot.com/2009/05/joao-gilberto-amorosobrasil.html, em 02/05/2009.