Arquivo para Manaus

Armando Brasileiro

Posted in homenagens with tags , , , , , on 10/04/2012 by coelhoraposo

Morreu hoje em Manaus Armando Dias Soares.

Seu passamento leva parte importante de minha memória afetiva de Manaus. Seu bar não era só um ponto de encontro, mas sim um símbolo de uma cidade que se descaracteriza a passos largos…

Vá com Deus, Armando!

Desejo toda a força do mundo à sua viúva, D. Lourdes e às suas filhas, Ana Cláudia e Ana Lúcia.

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Depoimento de Armando para o projeto “Ponto de Vista“, do Coletivo Garapa

o universalismo regional de Milton Hatoum

Posted in apud, Genealogias de minhas paixões, homenagens with tags , , , , on 21/01/2011 by coelhoraposo

Pode ser bairrismo, mas para mim Milton Hatoum personifica o que há de melhor na literatura atualmente. Talvez ele seja o único autor que leio exclusivamente por prazer e não por obrigação acadêmica ou intelectual.

Hoje meu dia começou muito bem lendo esta matéria do Jornal Valor Econômico, que replico aqui. Meus agradecimentos ao meu futuro companheiro de viagem, o nobre Palandi, que me informou desta entrevista.

Curtam aí!

* * *

O viajante não tem pressa

Por Adriana Abujamra, | Para o Valor, de São Paulo

21/01/2011
(Ilustração: Lula)

Dizer que personagem cria vida própria e se liberta do autor é frescura. Personagem não passa da uma figura de papel. Faz apenas o que eu quero.

Milton Hatoum chegou pontualmente às 12h30, como combinado. Os cabelos brancos nos contam de seus 58 anos, mas as sobrancelhas escuras confundem. A voz é um personagem à parte: a voz de alguém que sonhou ser radialista e na adolescência cantou boleros e iê-iê-iês em bordéis de Manaus.

É discreta a fachada da Vila das Meninas, o restaurante que o escritor escolheu para este “À Mesa com o Valor”. Uma casa como tantas espalhadas no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Um corredor estreito e comprido, flores por toda parte, finda num quintal com uma árvore cheia de lamparinas.

Hatoum mora e trabalha perto dali. “Odeio dirigir”, diz lá pelas tantas. Quando o amazonense é obrigado a encarar o martírio do volante, consola-se imaginando que está no rio Negro, numa canoa atravessando a água.

A garçonete nos leva a uma mesa. Distribui os cardápios e prepara-se para anotar os pedidos. Dispensamos a carta de vinhos, pois o escritor evita beber de dia para não atrapalhar o trabalho. Ela nos serve água. Ainda sem fome, petiscamos prosa.

Autor de quatro romances premiados, um livro de contos e com suas obras publicadas em 14 países, Hatoum define-se como um paulista do Amazonas: “Eu existo graças à rua 25 de Março”, brinca.

Diz a lenda que seu pai e seu avô materno se encontraram na rua do centro de São Paulo comprando mercadorias para suas lojas. Papo vai em português, papo volta em árabe, Moamede, o avô com nome de profeta, foi logo oferecendo a filha para o patrício.

“Por que você não vai a Manaus conhecê-la? Ela é linda”, propagandeou o homem. Convite aceito num dia, casamento marcado para o outro.

Em Barcelona: após obter bolsa, escritor foi estudar literatura na Espanha (Arquivo pessoal)

Moamede, homem calmo, levava o neto para acompanhá-lo em caçadas e pescarias. Sentados à beira do rio, o avô enlaçou o menino narrando histórias: “Quem veio do Líbano para a Amazônia tem muito o que contar.” Moamede foi parar num de seus contos, transformado no narrador de “Adeus ao Comandante” do livro “A Cidade Ilhada”.

Sua meninice foi nas ruas e na beira dos rios e igarapés. “Hoje a infância é confinada”, lamenta-se o escritor, que tem dois filhos pequenos. Toda noite leva a Amazônia para os moleques por meio de histórias inventadas, que Hatoum narra feito um maluco, com teatralidade.

“Não sei se seu jornal publica essas coisas”, Hatoum diz, fazendo uma pausa para tomar um gole de água e aguçar nossa curiosidade. “Conheci os prostíbulos muito jovem, com 12 anos. Os bordéis de Manaus eram magníficos. Casinhas de palafita à beira do rio. Tocavam música caribenha.”

Aos 2 anos (Arquivo pessoal)

Reconheci a história na hora. Está no conto “Varandas da Eva”. “Você leu?”, ele quis saber. “Sim, respondi. Li todos os seus romances e contos.” Era a admiradora do escritor escapulindo ao controle da jornalista, que se escondeu num longo gole de água.

Foram ao bordel num bando de amigos. “Era a primeira vez de todos nós. Havia essa ânsia do primeiro encontro, como está no conto.” Um de seus tios ensinou: “Vá lá e namore, rapaz”. Era praxe esse galanteio de escolher a moça e dançar de rosto colado.

Inesquecíveis também eram as tardes em que Hatoum acompanhava o pai à loja que comandou durante 50 anos, a Esquina das Sedas. Apareciam vendedores europeus trazendo tecidos coloridos na bagagem e o magnífico mundo de lugares e línguas distantes.

Esse ambiente de Manaus foi reinventado em seus romances. A memória é grande aliada do escritor, mas não uma lembrança cristalizada, e sim “algo do passado que, como dizia Manuel Bandeira, ‘agita as águas do presente’. É justamente essa memória nebulosa e inexata que forma o campo inventivo da literatura.”

Com um dos dois filhos: “Hoje a infância é confinada”, lamenta Hatoum, que toda noite leva a Amazônia aos meninos por meio de histórias inventadas, narradas com teatralidade (Arquivo pessoal)

Qualquer um de nós pode gabar-se de ter experiências interessantes. Afinal, elas não são restritas aos escritores. O que lhes é particular é a dádiva de transformar vida em arte, mediando-a pela invenção e pela linguagem. “Olha, a vida é sempre mais complexa que a literatura. Eu não tenho dúvida quanto a isso. Acontece que na vida você não vê os detalhes das situações. Você não pode simplesmente transcrever uma experiência. O que interessa, numa obra literária, é a experiência do narrador, não a experiência empírica do autor.”

Encontrar a voz do narrador de um romance requer uma busca meticulosa. Caso contrário, a obra desanda. “Se você errar a mão no narrador, você falha no livro todo.” Fato que já lhe ocorreu: “Eu fracassei muitas vezes”, diz, dando de ombros. “Eventualmente, um ou outro romance meu tem muitos leitores.”

Escrever exige basicamente duas coisas: tempo e paciência. Tudo que a parafernália digital rouba da gente: celular, Facebook, Twitter e blog. Hatoum resolveu a questão de maneira simples e radical: não usa nada disso.

A arte da paciência é atributo indispensável de um escritor. Não da garçonete. “E agora, escolheram?”, pergunta a moça, pela enésima vez, com a caneta tamborilando no caderno de notas.

Caderno de Hatoum, que escreve novo livro com trama em Paris (Regis Filho/Valor)

Sem abandonar a fala suave, de quem quiçá engoliu uma peça inteira de veludo colorido na loja do pai, Hatoum quer saber: “Está com pressa?” A moça se desculpa e promete voltar quando sua presença for solicitada.

E-mail, Hatoum utiliza com parcimônia: “Tenho amigos muito ansiosos que, quando não respondo uma mensagem na hora, interpretam como uma rejeição ou, sei lá, uma amizade perdida”.

É preciso tempo, num tempo em que não há mais tempo para nada. “Digo isso com uma voz enlutada. Acho, sendo mais pessimista que os outros, que a literatura não pertence mais ao campo simbólico de uma civilização.”

E, como literatura dificilmente enche barriga, o estômago gritou na voz mansa: “Podemos pedir? Estou faminto”.

O cardápio é em forma de livro dividido por capítulos. Os pratos são batizados com humor: há o arroz de puta rica ou o arroz de malandro. Os personagens do autor também têm nomes sugestivos, como Amando Cordovil. Amando: aquele que é amado. Cordovil: o coração e o vil, na mesma pessoa. Dinaura, que tem a aura e o ouro.

 

O prato escolhido, peixe com banana: “A melhor coisa do Amazonas é o peixe. Curimatã, tambaqui, surubim, pirarucu, não tem fim” (Regis Filho/Valor)

Escolhemos o peixe com banana. E, como costuma acontecer quando a fome é demasiada, o estômago ditou o rumo da conversa. “A melhor coisa do Amazonas é o peixe”, diz, como quem saboreia as palavras: “Curimatã, tambaqui, surubim, pirarucu, matrinxã, não tem fim”.

“E a culinária libanesa?” As sobrancelhas levantam-se, como se tivessem paladar. “É uma coisa doida. Quando fui ao Líbano, conheci tantos parentes que já não sabia quem era quem.” Para não fazer desfeita, aceitou todos os convites: almoçava três vezes por dia e jantava duas. Engordou cinco quilos em dez dias.

“Tem farofa?”, Hatoum quer saber. A garçonete checa com o gerente e a cozinha se era possível servir uma porção à parte. “Peixe sem farofa não dá. Fale que é para um amazonense.”

Hatoum não engole peixe sem farofa e tampouco conversa fiada de colegas escritores: “Dizer que personagem cria vida própria e se liberta do autor é uma frescura. Personagem não passa de uma figura de papel. Faz apenas o que eu quiser. Depende da concepção que tenho dele.”

Nunca aconteceu de um parente ou amigo tirar satisfação por se identificar com algum de seus personagens? Ocorreu o contrário. Uma tia do autor vive reivindicando um lugar nos seus romances. Ele diz a ela, sem piedade: “Tia, você é muito simples para ser personagem. Não vai entrar em livro nenhum. Talvez o dia que parar de ler autoajuda, quem sabe?” Ele sabe. “Nunca. É uma ilusão pensar que um leitor de livros religiosos ou de autoajuda vá ler Guimarães Rosa ou James Joyce.”

Já Nohade, outra de suas tias, merece ser protagonista. A mulher até hoje faz bombom de cupuaçu para o sobrinho marmanjo. Mas, por ser generosa em demasia, tia Nohade nunca será vista em suas histórias: “Tem que ser um pouco transtornada, um pouco cínica para ser personagem. Titia merece outra coisa, um soneto lírico, talvez.”

Vários personagens de Hatoum são inspirados em pessoas de carne e osso. Outros, não. Domingas, por exemplo, mãe do narrador de “Dois Irmãos”, saiu de um conto de Flaubert. Cabe à imaginação colocar cores ou mesmo criar personagens que surgem do nada, mas no fundo revelam traços do escritor: “Mesmo os piores. Eu às vezes uso todo o meu ódio para compor um personagem, tudo aquilo que não sou em vida.”

(Regis Filho/Valor)
Chega a comida. Esbaldando-se com a farofa e o cação, Hatoum narra outro capítulo de sua história: a banda da qual participou como vocalista em Manaus, os Stepping Stones. Além de talento para cantar, a função exigia faro para interpretar o clima no salão: “Saber se os casais estavam mais para o aconchego, rosto colado de um Roberto Carlos, ou se era hora de sacudir e partir para um ‘tiquetutique’.” Hatoum nos surpreende balançando o corpo, como quem dança e canta na cadeira do restaurante.

Quando completou 15 anos, o idílio acabou. O menino saiu da “província” e embarcou para Brasília, deixando o paraíso de Manaus para trás. Afastar-se de supetão da cidade e da família marcou Hatoum profundamente.

“Você tem filhos?”, pergunta. Larga os talheres, tira os óculos e me encara: “Você imagina seu filho sair de casa, sozinho, para um lugar distante, sabendo que não volta tão cedo? Foi duro.”

O narrador observa minha reação antes de continuar, para ter certeza de que entendi. “Muito duro”, repete. “Um corte, uma fratura.” A tristeza da separação ficou bem guardada e só veio à baila pouco antes da morte da mãe do escritor, que confessou: “Filho, você não imagina quantas vezes eu chorei depois que você partiu.”

O ano era 1968. O adolescente desembarcou em Brasília, “a cidade do futuro”, em plena turbulência política. Não cabiam os Stepping Stones. Hatoum teve que virar gente grande na marra. “Se eu cantasse o Tremendão no Colégio de Aplicação, seria execrado. Havia uma militância feroz.” Hatoum foi preso durante uma passeata, mas solto em seguida, pois era menor de idade. “Não me bateram, mas eu ouvia gritos. Sabia que tinha gente sendo torturada. Tive bode de Brasília. Me deprimi.”

Veio para São Paulo, onde foi estudar arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). “Eu queria escrever, não ser um escritor, pois não me imaginava vivendo de literatura.” Na universidade, fundou uma revista de poesia com alguns amigos, a “Poetação”, que o pelotão de críticos trotskistas chamava de “punhetação”. “Eu nunca fui de direita; pelo contrário, era militante. Mas eu queria poesia, só que a esquerda radical era fanática.”

Impossível ler James Joyce ou Marcel Proust em meio à efervescência dos anos 1960: “Toda aquela liberdade social, a questão política e as drogas.”

Depois de trabalhar como jornalista e dar aulas por alguns anos, Hatoum decidiu que era hora de sair do Brasil, ver o país de longe. Conseguiu uma bolsa para estudar literatura e embarcou para a Espanha. De lá, Estados Unidos e, por fim, França. Hatoum se virava dando aulas de português, de literatura e fazendo traduções.

Passaram-se anos. Quando se deu conta, o escritor já sonhava em francês ao lado de uma parisiense. “Se não voltasse naquele momento, nunca mais.” E, como diz Kaváfis, o poeta grego que serve de epígrafe para um de seus livros: “Não encontrarás novas terras, nem outros mares. A cidade irá contigo”.

O nômade abandonou o doutorado inacabado na Sorbonne e voltou para terminá-lo em solo pátrio. Nessa época, já havia publicado seu primeiro romance, mas ainda não vivia de livros. Trabalhava na universidade e sofria para conciliar o trabalho de professor com a literatura.

Em 1998, Hatoum tomou a decisão mais difícil de sua vida: largou o doutorado e o emprego estável como professor universitário, função que exerceu durante 15 anos, para se dedicar a terminar o livro “Dois Irmãos”. “Seria escritor de um livro só ou escrevia algo forte e verdadeiro, que viesse realmente de dentro de mim. Foi difícil.”

O editor Luiz Schwarcz, dono da Companhia das Letras, leu os originais de uma sentada e previu que o livro seria um sucesso. Hatoum, “pessimista por princípio”, duvidou. Estava enganado. Foi graças a esse romance, publicado 11 anos depois do primeiro, que ele pôde viver apenas da renda dos livros.

O autor é crítico implacável da própria obra: se um texto seu não passar um teor de verdade, ele não publica. “Embora eu queira viver e viva de literatura, não gostaria de descambar para o meramente comercial. Esse é um compromisso ético que tenho com meu trabalho.”

Certa vez, antes mesmo de lançar seu primeiro romance, mandou uns contos para a escritora Nélida Piñon. “Ela me escreveu uma carta muito bonita e elogiosa. Elogiosa até demais. Aquilo produziu um efeito estranho em mim.” Tanto que parou de escrever e rasgou todos os contos que tinha.

Volta a garçonete: “Satisfeitos?” Dispensamos a sobremesa e pedimos café.

Fechamos a conta, não a conversa, que vai parar na Síria: “Sabe que, lá, esses doces fantásticos são os homens que fazem?” Ele acrescenta num tom irônico: “Nem todos os árabes são terroristas. Alguns são de uma grande delicadeza.”

“Ó, gente, com licença, vocês podem ficar à vontade, viu?” Era a faxineira, metida em seu uniforme, carregando balde, vassoura e pano. “Mas eu vou limpando porque está na hora de eu ir embora, tá?” Não havia mais freguês no lugar. Todos, inclusive a nossa solícita garçonete, tinham desaparecido.

Saímos do restaurante sob o mormaço daquela quarta-feira. Em pé, na porta do As Meninas, continuamos a conversa. E, como quem adivinha pensamento, Hatoum convidou: “Querem ir ao meu escritório?” E não? Seguimos de lá a pé para seu refúgio. Uma edícula, nos fundos de um consultório dentário.

A sala em que o escritor trabalha dá para um jardim, de que ele mesmo cuida, um pedacinho do Amazonas. Na parede, ao lado da mesa, o mapa da cidade que será cenário de seu próximo romance, Paris: “É uma história sobre exílio, amor e política”, adianta.

Sobre uma mesa, cadernos de capa dura. São os manuscritos de seus livros. A primeira versão é sempre escrita à mão. Depois ele digita o texto no computador e começa a fazer revisões. Curiosos, eu e o fotógrafo folheamos as páginas de um caderno, em que o texto aparece com rasuras e anotações. As folhas não têm pauta, mas as sentenças aparecem em linha reta.

Quero saber se já decidiu mudar o fim de uma história depois de concluí-la. Ele conta que, na primeira versão de “Dois Irmãos”, o narrador do romance aproximava-se de um dos gêmeos. Após ler os originais, o escritor Raduan Nassar aconselhou-o a mudar: “Se eu fosse ele, me afastava desses dois crápulas. Ele tinha razão.”

Na versão original da novela “Órfãos do Eldorado”, Dinaura, a mulher amada por Arminto, terminava em seus braços. “Por sugestão de Manuel Titã, ótimo leitor, tirei a última página”, diz o escritor. “Deixei em aberto. Cabe ao leitor imaginar se ela volta ou não.”

Era tarde. Hatoum nos acompanha até o portão, despede-se e acena antes de voltar para os fundos da casa.