Arquivo para José Miguel Wisnik

futebol, brasil e wisnik

Posted in apud, estante, Genealogias de minhas paixões with tags , , , , , on 14/10/2011 by coelhoraposo

WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 446 pág.

Já falei aqui de minha paixão por José Miguel Wisnik em outras oportunidades (aqui e aqui). Não conheço sua produção acadêmica e, como não sou um acadêmico (muito menos um acadêmico das letras), não posso falar se ele é um bom professor, pesquisador e etc e tal (talvez minha amiga Raquel possa me ajudar nisso). Mas como compositor, letrista e pensador acho que seu curriculum dispensa comentários.

Há anos tento terminar a leitura de O Som e o Sentido, sem sucesso. Mesmo não sendo um livro hermético sobre a história da música, tenho ainda algumas dificuldades técnicas em compreender certos conceitos. Mas vai que um dia aprendo. Mas em Veneno Remédio – O futebol e o Brasil, Wisnik lança mão de toda sua bagagem cultural, acadêmica e, por que não, pessoal para fazer uma análise culturalista bem interessante sobre a importância do futebol na formação de nossa(s) identidade(s) nacionais. Seu ponto de partida são os escritos de Pier Paolo Pasolini (sim, o próprio) sobre esportes e, mais especificamente, sobre o futebol – inclusive sobre o futebol brasileiro.

Em tempos de Copa do Mundo, leis que ferem abertamente a soberania nacional e os obscenos e imperdoáveis gastos faraônicos (superfaturados e altamente desviáveis) para receber o evento da FIFA no Brasil, nada melhor do que uma leitura abrangente sobre o esporte que une o Brasil, gostando ou não.

Enfim, Veneno Remédio é um livro pra quem gosta de futebol para além das quatro linhas. Mas, mais do que isso, é um livro para quem quer entender o que faz do Brasil, o Brasil.

Segue abaixo trecho introdutório do livro:

No Brasil, a incapacidade de combinar a paixão e a crítica tornou- se um traço recorrente, dominando em boa parte a cena pública invadida a todo momento pelo futebol: é como se fôssemos obrigados a estar muito colados ao fenômeno ou muito fora dele, como se só pudéssemos ser ou frívolos ou graves, para usar aqui a famosa definição de Brás Cubas para as “duas colunas máximas da opinião”. Um futebolismo avassalador,multiplicado pela mídia e euforizado ainda mais pela propaganda,tem como contraponto quase obrigatório as vozes altivas que se põem no que parece ser a posição pensante e que timbram por minimizar o futebol em si, destituindo-o de qualquer relevância cultural. No momento que agora se abre, com a perspectiva da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, a conhecida combinação brasileira de sucesso futebolístico com desmando político acaba por chapar o processo, fazendo dele inteiro uma só medalha, com uma face eufórica e outra disfórica a se revezarem infinitamente (papel exercido pelo duplo viés de exaltação e bombardeio acusatório com que a imprensa trata comumente o assunto). Aqui, a tentativa é fazer contato com a experiência total do futebol na vida brasileira sem cair na gangorra onipresente que balança entre o veneno da crítica ou a droga euforizante – pólos que se equivalem, quando falsamente contrapostos, em nivelar e esconder a questão.

Ainda sobre Barack Hussein Osama…

Posted in apud, realpolitik with tags , , , , , on 07/05/2011 by coelhoraposo

Graças ao facebook (ao amigo Pedro Amaral e ao Itamaraty), li este artigo do multi-tarefa José Miguel Wisnik, publicado hoje, no jornal O Globo. Um pouco mais sobre Obama, Osama etc…

Obama e Osama, por José Miguel Wisnik

A morte de Osama Bin Laden me fez reler, nesses dias, o livro de Giorgio Agamben chamado “Homo sacer — O poder soberano e a vida nua I”. Já citei várias vezes o filósofo italiano, nesta coluna. Me interesso mais, ou talvez me identifique mais, com seus livros sobre poesia, linguagem, arte, como “Profanações” e “Ideia da prosa”, que contêm iluminações, embora às vezes me parece que saiam do foco. O que mais me impressionou foi “Estâncias — A palavra e o fantasma na cultura ocidental”, que revisita de maneira reveladora a história da melancolia, a mais antiga doença da alma. “Homo sacer”, que eu citei a propósito da tragédia de Realengo, trata da biopolítica, isto é, da sujeição do corpo, da matéria da vida e da morte, pelos poderes contemporâneos. 

As duas figuras principais do livro são opostas e espelhadas: o soberano e o pária, que também podemos chamar de “banido” (Agamben é de uma erudição requintada, e descobre a figura do banido numa antiga expressão latina do direito romano, a do “homo sacer”). O poder soberano é aquele que se move dentro da lei, não como quem se submete ao seu ditame universal, mas como aquele que, ao ditála, se põe acima dela e fora dela, porque é ele que põe e dispõe, é ele que faz e desfaz a lei. O soberano é o elemento ordenador, no sentido forte de que dá as ordens supremas de vida e de morte, que faz valer a lei que não vale para ele e que, não valendo para ele, não é a lei. É a ordem e está fora da ordem. O pária é aquele que, no polo oposto, está em posição de ser morto sem punição para quem o mata, e sem direito a um rito religioso que sacralize a sua morte. Está fora da ordem jurídica e da ordem religiosa. 

O soberano e o pária não deixam de participar de uma surda lógica que lhes é co – mum, e da qual eles são os pontos extremos: ambos estão fora da lei, seja porque um pode soberanamente excluir-se dela, seja porque o outro está completamente excluído dela. A tese de Agamben, que traz em si algo daquele aspecto cabuloso das generalizações de efeito, diz que vivemos cada vez mais num estado de exceção em que o soberano é aquele para o qual todos os outros são párias, matáveis sem recurso jurídico ou religioso, e o pária é aquele, sem recurso jurídico ou religioso, para o qual todos os outros são soberanos. Num mundo em que a lei revela o seu caráter enganoso de má ficção, somos todos, no limite, párias ou soberanos. 

A ação cirúrgica que matou Osama Bin Laden é uma manobra de vingança e justiçamento, e não propriamente de Justiça, como Obama a chamou no ato complementar simbólico que se deu no espaço das torres gêmeas, com a presença de parentes das vítimas do 11 de Setembro. Impressiona que se use para ela todos os torneios jurídicos da lei, incluindo a tese da legítima defesa, para uma ação que se situa claramente acima, abaixo e fora da lei. Essa indistinção é a pura expressão do poder soberano nos termos de Agamben, e faz da lei uma “vigência sem significado”. 

Vejo isso como teatro trágico em ato. Osama autor do atentado hediondo às pessoas que trabalhavam nas torres gêmeas usurpou por um momento a posição soberana como o raio vindo do céu que desmonta de maneira inimaginável os símbolos aparentemente intocáveis do poder soberano. O mesmo ato o torna o pária dos párias, o banido dos banidos, o matável dos matáveis, o caçado dos caçados. Dez anos depois, à maneira da carta roubada do conto de Edgar Allan Poe, que se esconde não numa caverna recôndita do Afeganistão mas no lugar menos visível de tão óbvio, num centro urbano e militar do Paquistão, Osama é localizado, morto, objeto de um rito pró-forma e riscado do mapa de maneira a não deixar traço. 

O seu duplo chama-se Obama, eleito com o nome estranho que continha cifradamente os dois inimigos jurados dos Estados Unidos dos Bush — Hussein e Osama, hoje mortos. Imagino os monólogos interiores de Barack Hussein Obama durante a crise secreta que antecedeu a morte de Osama. Esse Orfeu Negro que chegou à presidência dos Estados Unidos, muito diferente dos presidentes americanos que, depois de Kennedy, nunca souberam andar e mascar chiclete ao mesmo tempo (como disse deles Richard Morse), que tentou desativar Guantánamo (cujas torturas foram base da operação que caçou Obama), sabe distinguir muito bem o que é a violência soberana e o que é o império da lei. 

Que ele tenha aceito confundir as duas coisas como sendo a mesma é um índice gritante da regra que toma o mundo, e de que a sua posição tornava-se insustentável sem o ato de reentronização do poder soberano americano aos olhos mundiais, tendoo como o protagonista a calar a boca da direita, unificando o país sob o signo da revanche vitoriosa. A ação, seus métodos e seu discurso, ao reaproximá- lo cenicamente dos que o atacam dentro dos Estados Unidos, colocou Obama e Osama, quase como uma alegoria, como o par indissolúvel da vida contemporânea, os gêmeos extremos nos quais se espelha a fragilidade inócua da lei. 

A famigerada cena do gabinete de crise onde o alto comando americano assiste à execução no Paquistão em tempo real impressiona pelo fato de nos colocar dentro da foto, como um quadro de Velasquez em que não vemos a cena que eles veem, mas somos chamados a entrar nela, representados na imagem por alguém que, ao fundo, à direita, estica o pescoço para ver melhor o inominável, frente ao qual Hillary leva a mão à boca, enquanto o presidente ocupa uma posição periférica, e o trono é ocupado pelo militar medalhado.

Publicado em O Globo, edição de 07/05/2011.