Arquivo para João Thomé Mestrinho

qual o sentido da coerência? – parte 2

Posted in Genealogias, realpolitik with tags , , , , , , , , , , , , on 04/10/2010 by coelhoraposo

Certa vez disse que a política é pragmatismo em forma de arte. Para alguns, essa afirmação pode ser vista algo como cínica. Mas não vejo desse jeito: algumas pessoas tendem a ver sonho e pragmatismo como atitudes conflitantes. Não vejo assim. É possível sim aliá-las. Inclusive é somente assim que se consegue conquistar algo: é preciso desejar, ambicionar e depois traçar planos para efetivá-los.

Para seus detratores, Gilberto Mestrinho formou, a partir de 1982, um grupo nefasto que domina o Amazonas. Não é bem assim. Mestrinho formou sim um grupo. Ninguém governa sozinho, alianças são e sempre serão necessárias. Lula, por exemplo, não conseguiu governar nestes últimos 8 anos somente baseado em seu carisma messiânico-populista, foram as alianças que o alçaram à condição de quase total unanimidade no país. Deixo claro aqui que não estou fazendo juízo de valor algum, afinal existem formas e formas de construir alianças e, no Brasil, há a tendência de se confundir formação de alianças com cooptação (muitas vezes espúria) da oposição.

Mas voltando ao âmbito regional, falo de grupos, alianças para reafirmar o papel fundamental da coerência na política. E falando em coerência, afirmo: Omar Abdel Aziz é a melhor escolha no momento para governar o Amazonas nos próximos 4 anos, mas não por causa do ditado popular que fala que “em time que está ganhando não se mexe”, mas sim pelo fato de que falta ao seu adversário, Alfredo Nascimento, algo fundamental a qualquer político: impôr sua personalidade e falta total de projetos. Ambição é algo elementar para qualquer um, mas ambição vazia de projetos vira (…)

Bem,este era o rascunho que tinha emaneira melancólica.scrito para a segunda parte desta postagem. São 3h30 do dia 04 de outubro e as eleições já passaram. Mas o que eu tinha que dizer continua atual: Omar Abdel Aziz foi reeleito com algo como 64% dos votos válidos: uma vitória acachapante e que mostrou, principalmente à cúpula do governo federal, que a aposta numa candidatura vazia de ideias e de musculatura capitaneada pelo ex-prefeito de Manaus, ex-ministro dos transportes e “quase tudo” (como definido por Aziz no derradeiro debate da Rede Amazônica), Alfredo Nascimento; naufragaria de

O governador reeleito e o ex-prefeito de Manaus e ex-ministro Alfredo Nascimento. Foto: Raimundo Valentim

Para deputado federal, tive o prazer de ver meu candidato a deputado federal, o ex-deputado federal por 4 mandatos (1991-95, 1995-99, 1999-2003 e 2003-07), Pauderney Avelino retornar à Câmara dos Deputados para tentar ocupar o espaço deixado nestas eleições por Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro Neto, senador combativo que nos últimos anos – concordando ou não com suas atitudes – de forma brilhante representou o Amazonas. Perdeu o Amazonas e perdeu o Brasil por não reelegê-lo. Esperemos agora que o senador eleito Eduardo Braga, também faça valer seus quase 1,3 milhão de votos.

Arthur Virgílio, Pauderney Avelino e Eduardo Braga. Fotos: Arquivo Folha de S. Paulo e Arquivo A Crítica.

Em tempo, João Thomé Mestrinho não foi eleito. Mas com a sensação de dever cumprido, com as mãos limpas por não fazer uso de mecanismo espúrios em sua campanha, tenho a certeza de que honrou cada um dos 10.391 eleitores que o honraram com seus votos de confiança num projeto de renovação e resgate do nome da Assembléia Legislativa do Amazonas.

ps. quero ainda parabenizar o senador eleito mais votado por São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira, que mostrou que propostas e história de trabalho valem mais do que nomes midiáticos e pagodes de quinta. Uma pena que por outro lado, Lindbergs, Romários, Tiriricas e congêneres sejam eleitos enquanto figuras como as de Heloísa Helena e Germano Rigotto percam para aventureiros de plantão…

ps 2. Com a decisão da eleição presidencial postergada para o segundo turno, penso seriamente em votar em José Serra, principalmente após o boato corroborado por alguns interlocutores com livre trânsito em Brasília de que Marina Silve pode vir a substituir o tresloucado Índio da Costa como seu candidato a vice-presidente.

ps 3. Postagem escrita ao som dos magistrais Blonde on Blonde, Blood On The Tracks e The Basement Tapes todos de Bob Dylan (o último com The Band), tirem as conclusões que quiserem.

qual o sentido da coerência? – parte I

Posted in Genealogias, realpolitik with tags , , , , , , on 02/10/2010 by coelhoraposo

Qual o sentido da coerência?
Dizem que é prudente observar a História sem sofrer.
Até que um dia, pela coincidência,
As massas tomem o poder…
Ando nas ruas e vejo o povo fraco, abatido,
Este povo não pode acreditar em nenhum partido.
Este povo cuja tristeza apodreceu o sangue
Precisa da morte mais do que se pode supor.
O sangue que em seu irmão estimula a dor,
O sentimento do nada que faz nascer o amor,
A morte enquanto fé e não como temor.

(trecho de Terra em Transe , 1967 – Glauber Rocha)

Neste domingo teremos mais um eleição geral no país: votaremos (ou não) para presidente, governador, dois senadores, deputados federal, estadual e distrital (no caso de Brasília). Quem me conhece minimamente sabe que sempre tive uma relação uma relação de amor e ódio com política eleitoral: desde meus arroubos anarquistas a minha aventura como candidato em 2006. Sempre busquei manter distância disso tudo e quase consegui, muito por obra e graça da minha mãe que optou por me criar em Brasília. Porém, acabei sendo dragado pelo redemoinho da política.

Plínio Ramos Coelho, fiel até sua morte em 2001 ao trabalhismo fundado por Getúlio Vargas, foi deputado estadual, federal, governador por dois mandatos (1955-58 e 1963-64) e um dos maiores advogados e oradores que o Amazonas já viu (seus discursos só eram comparáveis, em termos de brilhantismo, aos do Senador Arthur Virgílio Filho). Plínio, ou Ganso do Capitólio (ou ainda “pata-choca”, como era chamado por seus adversários), foi responsável por uma verdadeira revolução administrativa num estado falido, abandonado à sua própria sorte após a decadência do fausto da borracha no início do século 20. Ao seu lado, Plínio tinha o apoio de um jovem assessor que logo se tornara seu principal conselheiro e amigo. Após nomeá-lo prefeito de Manaus, Plínio ajudou a fazer surgir o maior mito da política amazonense: Gilberto Mestrinho de Medeiros Raposo, governador por três vezes (1959-62, 1983-86 e 1991-94) deputado federal e senador.

O trabalho em conjunto desses dois grandes homens ecoa até hoje e são as fundações sólidas que baseiam o desenvolvimento deste Amazonas forte e pujante. Tenho muito orgulho de descender destes dois homens, meus avôs. Orgulho que vem acompanhado da responsabilidade de carregar o legado de integridade e paixão pelo Amazonas e seu povo.

Filho de Gilberto Mestrinho, João Thomé também tem uma história de devoção ao seu estado, principalmente ao interior, a quem dedicou grande parte de sua vida. Eleito deputado estadual em 1982, Thomé participou ativamente da administração de seu pai. Quando o assunto foi a implantação de assentamentos, por exemplo, não pensou duas vezes em se mudar para o interior e acompanhar de perto a instalação das famílias e na promoção da educação, saúde e da capacitação técnica. João Thomé também foi fundamental durante a primeira administração municipal de Amazonino Mendes, administrando à quatro mãos a capital amazonense e saneando boa parte da cidade e dando início, em conjunto com o governo de Mestrinho, ao projeto Manaus Moderna – que resultou no bem sucedido PROSAMIM.

Adib Mamed Assi, Amazonino Mendes, Fábio Lucena e João Thomé visitando obras de saneamento da Vila Mamão, circa 1984

Reeleito deputado estadual em 1986, continuou a trabalhar como sempre trabalhara, atendendo as pessoas em seu gabinete até o último cidadão e viajando pelo interior do estado sempre levando sua mensagem de que o poder político só tem validade quando emana realmente do povo. Em 1991 assumiu a Secretaria de Produção Rural colocando em prática muitos de seus sonhos e projetos que visavam a emancipação do interior do Amazonas. Com a eleição de Eduardo Braga como vice-prefeito de Manaus em 1992, Thomé assumiu o mandato de deputado federal sendo reeleito em 1994. Em 1998, já desgostoso com os rumos tomados com a classe política, decidiu se dedicar unicamente ao seu projeto de desenvolver a piscicultura no Amazonas. No início foi taxado de louco por alguns (“imagine, cavar buraco para criar peixe no Amazonas”), mas é inegável que hoje a piscicultura é uma realidade e proporciona dignidade e trabalho para muitas pessoas, principalmente no abandonado interior amazonense.

Com a morte de Mestrinho em 2009, Thomé foi convocado por muitos dos amigos do ex-governador para dar continuidade ao trabalho do pai e tentar recuperar a imagem corrente (e muitas vezes verdadeira) do político como uma classe sem coerência, sem ética e vendilhona. A omissão sempre é a pior opção, principalmente quando se tem consciência – por experiência própria; de que é possível sonhar num mundo mais justo, mais igualitário, mais humano e menos corrupto e cínico. Num mundo onde a Lei de Gérson impera, é possível sim sonhar que além do horizonte de trevas que se impõe exista um lugar melhor para todos. E isso só é possível quando realizado coletivamente. Por isso apóio João Thomé para a Assembléia Legislativa do Amazonas, não por ele ser meu pai, mas pela certeza de que ele seria um dos poucos deputados que, com toda a certeza, poderiam realmente ostentar o título de representante da sociedade e lá estaria para fazê-la representada e não para abrir um balcão de negócios e, com um sorriso no rosto, se locupletar como a grande maioria dos que lá estão.

Pra mim, a coerência de João Thomé vale muito mais do que os milhões gastos por muitos candidatos. A sensação é a do dever cumprido. Esse é o sentido da nossa coerência.