Arquivo para João Gilberto

da série: “canções fundamentais” – I

Posted in canções fundamentais, Genealogias de minhas paixões, musique non stop with tags , , , , on 18/09/2010 by coelhoraposo

Zíngaro/Retrato em Branco e Preto (Tom Jobim/Chico Buarque – 1968)

Notas sobre Retrato em branco e preto
Por Luiz Roberto de Oliveira

LR – Chico, como é que foi fazer tua primeira letra pra ele? Você achou dificil, foi uma emoção, foi uma coisa especial para você? Como é que foi esse “Retrato em branco e preto“, que antes se chamava “Zíngaro“?

CB – Quando o Tom me deu essa música para fazer letra… engraçado que nesse comecinho não sei se era uma impressão minha ou se era real, eu tinha impressão que ele estava me dando uma força, ele insistia muito para eu fazer a letra – porque comparando com outras músicas que ele fez mais tarde, quando a gente já tinha uma amizade maior, era mais difícil fazer letra para o Tom, porque ele interferia demais. Nessa letra ele não interferiu nada. Ele “Tá ótimo, tá ótimo, tá ótimo”, assim como quem faz cerimônia ou paternaliza um pouco, não sei, porque nós não tínhamos uma relacão ainda assim próxima, eu ainda tinha esse respeito por ele.
Entra uma certa cerimônia. Eu não me lembro de problema nenhum, não me lembro de história nenhuma, ele me entregou a música, que já estava até gravada e era “Zíngaro” e tal… e eu fiz a letra em casa e mostrei pra ele: “Ótimo, ótimo, ótimo” e ficou por isso. Não tenho uma lembrança maior. E foi para mim um desafio grande porque eu não era letrista nessa época, quer dizer, eu era letrista de minhas próprias músicas.

© Luiz Roberto de Oliveira, na Home Page de Tom Jobim


Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

1968 © by Editora Musical Arlequim Ltda.

os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo – parte 1 de 5

Posted in Genealogias de minhas paixões, listas, musique non stop, os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo with tags , , , , , , , , , on 23/07/2010 by coelhoraposo

Há alguns anos penso em relacionar os álbuns que moldaram meu gosto musical. São álbuns (ou discos, chamem como queiram) que tem importância não somente por seu valor musical, mas principalmente pelas portas que eles abriram para mim. Meus artistas preferidos estão aqui, mas nem sempre representados pelos álbuns que considero o melhor deles: muitas vezes a escolha se deu pelo que abriu caminho, me apresentou ou simplesmente tenho um carinho mais especial.

Esta lista começou como um Top 5. Logo percebi que era impossível fazer algo tão restrito. Ampliei para 10 mas não dava também. Fechei dolorosamente em 25 títulos. Fui obrigado a cortar alguns até mesmo álbuns que sou apaixonado. Mas tudo na vida é escolha e delimitação. Por exemplo, a ausência de qualquer álbum de Chico Buarque e Caetano Veloso, de quem sou fã, se explica por não ter um título somente para incluir. Gosto deles na integralidade (bem, Caetano não). Excluí música erudita, mas queria muito colocar Requiem de Mozart, mas não tenho uma gravação favorita.

Uma última observação é que, obviamente, não poderia listá-los por ordem de preferência, assim optei pela boa e básica ordem alfabética. Depois me digam o que acham da listagem.

*  *  *


Amoroso/Brasil, 1977/1981 – João Gilberto (com Caetano Veloso e Gilberto Gil em Brasil)

Todo dia quando acordava, a primeira coisa que minha mãe fazia era ligar o Rádio, sintonizando na Nacional FM. Isso já disse antes, na homenagem que fiz à minha mãe ano passado. Assim, a voz do João Gilberto sempre esteve presente na minha vida, desde o início dos tempos. Mas só foi um bom tempo depois quando assumi o comando da vitrola de casa que descobri essa tesouro, composto por duas pérolas: Amoroso, de 1977 tem standards da música internacional (Besame Mucho, Estate e ‘S Wonderful), standards da música brasileira (Wave, Caminhos Cruzados, Zingaro), tudo com os magistrais arranjos de cordas de Claus Ogerman: o regional vira universal com a voz e violão de João Gilberto. Já em Brasil, de 1981,  João se alia a Gilberto Gil e Caetano Veloso para fazer um disco-homenagem a música brasileira, com direito a participação de Maria Bethânia em No Tabuleiro da Baiana. Os críticos falam que com Amoroso e Brasil, João Gilberto está longe da ortodoxia bossanovística. Longe estão eles de entender que João não é um músico da Bossa Nova: transcende a esses rótulos. Simplesmente genial!

ps. as sessões de gravação de Brasil foram acompanhadas por Rogério Sganzerla, que realizou o curta-metragem Brasil, também de 1981.

Ataulfo Alves por Itamar Assumpção: Pra Sempre Agora, 1995 – Itamar Assumpção

Esse foi o primeiro álbum que ouvi de Itamar Assumpção, vulgo nego dito, falecido em 2003. Já tinha ido a dois de seus shows em Brasília: um no Gate’s Pub (onde dividiu o palco com seu parceiro de longa data Arrigo Barnabé) e outro, pasmem, na praça central do Pátio Brasil (dentro do projeto Vitrine MPB). Neste último ele, por motivos óbvios, não lançou mão de sua própria obra: utilizou suas reinterpretações cheias de suíngue da obra do grande sambista Ataulfo Alves. Tempos depois encontro este álbum sendo vendido por uma pechincha no Carrefour (algo como R$4,90). Obviamente não tive dúvidas e o levei (assim como quase toda a discografia do Nick Cave And The Bad Seeds que também estava o mesmo preço). Enfim, foi uma descoberta dupla: confirmou meu gosto por Itamar e abriu meus horizontes para o samba pré-Bossa Nova, representado por Ataulfo.

Avalon, 1982 – Roxy Music

Este não é nem de longe meu disco preferido da banda liderada por Brian Ferry. Um disco de baladas românticas como More Than This, que está em 10 entre 10 coletâneas estilo Love Songs. Mesmo que meu lado meio brega goste do disco, sua importância se deve mais ao papel que ele exerceu para me apresentar a banda em si: Roxy Music foi uma das bandas que melhor representou o glam rock. Além da introdução ao mundo rock feito por Ferry, Brian Eno, Manzanera e companhia no início dos anos 70. Esse álbum tem um valor afetivo muito grande pra mim por me lembrar de meu querido tio Plininho, falecido em 2000, que era louco por Roxy Music (de quem herdei a soberba coleção de vinis) e que adorava a música Avalon (última faixa do lado A).

Bitches Brew, 1970 – Miles Davis

Miles Davis sempre foi “aquele cara que revolucionou o jazz”. Sempre ouvi isso e quando passei a repetir isso, parei e pensei: por que? Fui a uma dessas lojas de disco no Brasília Shopping que não existem mais (acho que Planet Music) e vi vários clássicos da Columbia Records estavam em promoção. Resultado: saí da loja com Kind of Blue (1959), Sketches of Spain (1960), Miles Ahead (1957)e este Bitches Brew. Ok, Kind Of Blue é o clássico supremo de Miles, mas o que me fez pirar foi BItches Brew. Reza a lenda que ele, ao ver Jimi Hendrix em ação, percebeu que precisava mudar seu rumo musical. Este álbum iniciou toda uma nova maneira de fazer jazz. Aqui Miles Davis não criou composições, mas sim “direções em música” (está estampado na capa: “Directions in music by Miles Davis”): com isso ele buscava apresentar novos rumos para a música e, mais especificamente, para o jazz que ele via definhar e se restringir cada vez mais a um espaço residual no cenário mundial. Bitches Brew é tudo: é rock’n’roll pesado, é jazz da melhor qualidade, é soul… enfim nascia o fusion e com ele tudo mudaria.

Quanto ao time de músicos, sem comentários: Wayne Shorter, Chick Corea, John MacLaughlin, Jack DeJohnette, Bennie Maupin, Dave Holland, além de outras feras como o brasileiro Airto Moreira (em Feio). Um disco completamente mind blowing.

ps. ao lado de Let’s Get it On (1973), do Marvin Gaye e de Histoire de Melody Nelson (1971), do Gainbourg, este é o melhor disco para… Well, you know what I mean…

Clara Crocodilo, 1980 – Arrigo Barnabé

“Boca da noite / boquinha de gata / Chupando, mordendo / bala de conhaque / Colored / Color na garoa…”

O ano era 1980, Arrigo Barnabé, após ter cursado arquitetura e música na USP entrou de cabeça na música dodecafônica e produziu esse marco na música brasileira chamado Clara Crocodilo inaugurando o que se convencionou chamar de Vanguarda Paulista, que englobava os artistas que se apresentavam no Teatro Lira Paulistana como Itamar Assumpção, grupo Rumo (dos irmãos Tatit, Ná Ozzetti e outros), Premeditando o Breque, Língua de Trapo e outros.

Não lembro quando ouvi este álbum pela primeira vez. O que sempre marcou a minha memória foi a capa. Por motivos diferentes que Bitches Brew, esse também foi um dos grandes álbuns mind blowings na minha vida. Meu amigo Sandro Alves teve papel fundamental em me apresentar a este mundo maravilhoso da dodecafonia pop: a riqueza sonora deste disco é absurdamente fantástica.

Dispam-se de  preconceitos sonoros e tomem “vergonha na cara e ajudem a Clara, seus canalhas!”