Arquivo para Glauber Rocha

procrastina, meu bem!

Posted in nonsense, realpolitik, vomitando palavras with tags , , , , , , , , , , on 21/03/2012 by coelhoraposo

Não. Isto não é um post. É só uma reorganização mental. Então, indexemos.

1. Independentemente da culpabilidade de Thor Batista ou de Wanderson no fatídico acidente que ceifou a vida do ajudante de pedreiro, esta bela e dolorosa crônica da dura desigualdade brasileira, escrita pelo jornalista Paulo Nogueira (“Quando Thor encontrou Wanderson”), merece leitura;

2. Se, por um lado Dilma aos poucos afirma sua liderança enfrentando os encastelados no poder desde que o Brasil é Brasil, fugindo do jogo de chantagens e tentando impôr uma suposta tecnocracia; por outro, faz o jogo dos mesmos politicões acentuando o escambo político mudando ministros, acomodando partidecos e aceitando canalhices. Em resumo, faz faxina num dia e no outro abre a porta para os porcos sujarem a sala;

3. Ainda sobre Dilma, o que falar sobre sua ministra da cultura? Nada. Ou melhor, tudo. Tudo o que há de mais retrógado, despreparado e incompetente no governo Dilma pode ser sintetizado na maneira como este governo trata de duas questões: a Cultura e o Meio Ambiente. Sobre a Cultura, a audiência pública ocorrida hoje na Câmara dos Deputados fala por si só, mas destaquemos somente uma ideia propagada pela filha de Sérgio Buarque de Hollanda: “a internet irá matar a cultura brasileira”. Se por “cultura brasileira” ele considera (como seus atos à frente do Ministério fazem crer) a cultura do eixo Leblon-Jardim Botânico, baseada na política ultrapassada do copyright e dos plenos poderes do ECAD; ela está certíssima. Eu realmente não vejo diferença nenhuma, do ponto de vista formal e ideológico, entre o que acontece na Cultura e o que acontece com a política indigenista e ambiental deste governo: o anacronismo desenvolvimentista. Definitivamente, Dom Porfirio Díaz foi coroado e continua colocando “essas histéricas tradições em ordem” (assistam abaixo a “coração de Dom Porfírio Díaz a 1h43min, sintetiza em poucas palavras como somos governados neste país, desde 1500):

4. os posts continuam se avolumando na pasta de rascunhos;

5. projeto “Volta ao Mundo em 30 dias”  – edição 2012; está ganhando corpo, datas e itinerários;

6. a dieta vai muito bem, obrigado;

7. cansei dessa listinha e esqueci o que ia escrever aqui. até a próxima!

Glauber Pedro de Andrade Rocha (1939-1981)

Posted in Genealogias de minhas paixões, homenagens with tags , , , , , on 22/08/2011 by coelhoraposo

Benditos sejam os loucos, porque eles herdaram a razão

(Glauber Rocha)

Há exatos 30 anos a chama mais genial, mais inquietante, mais explosiva e mais revolucionária da cultura brasileira, se apagou. Com catastrófico e polêmico lançamento de seu último filme no Festival de Veneza de 1980, Glauber se refugiou em Sintra, Portugal.

A Idade da Terra (1980)  foi um retumbante fracasso em todos os sentidos: ninguém entendeu ou quis entender o que Glauber quis dizer com o filme, descrito por ele como uma missa não linear que radicaliza e subverte todos os cânones da dramaturgia. A repulsa ao seus filmes, somada com o que ele via ao seu redor (antigos revolucionários catapultados a neo-yuppies, colegas de profissão abrindo mão do caráter revolucionário do cinema etc.) e sua sensibilidade aguçadíssima que o fazia sofrer as dores do mundo (de todos e de todo o mundo), o mataram.

Seu último sopro de lucidez foi o de pedir para voltar para o Brasil para morrer na terra que tanto amava (e que por sua vez, pouco o compreendia). Assim aconteceu, morto aos 42 anos no dia 22 de agosto de 1981. Três décadas depois, a falta que um Glauber faz na vida brasileira é incomensurável. Mas, como declarou Arnaldo Jabor na bela homenagem que Sílvio Tendler fez a Glauber em Glauber, O Filme – Labirinto do Brasil (2003), o gênio-mor do cinema brasileiro não suportaria viver no mundo careta, sem paixões, onde os revolucionários de ontem são os retrógados de hoje (categoria em que o próprio Jabor deve estar enquadrado).

Assista abaixo trecho do documentário de Sílvio Tendler com o visceral discurso de outro gênio da raça, o antropólogo Darcy Ribeiro, no enterro de Glauber em 23 de agosto de 1981.

à la recherche du temps perdu

Posted in Divã, vomitando palavras with tags , , , on 13/12/2010 by coelhoraposo

Noel Rosa, cujo centenário de nascimento foi celebrado dia 11 último, morreu aos 26 deixando uma obra de mais de 250 canções.

Orson Welles revolucionou o cinema mundial aos 26 anos, ao dirigir e estrelar aquele que, para muitos, é o filme mais embemático da história do cinema: Cidadão Kane.

Aos 28 anos, Glauber Rocha já havia realizado Barravento, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe (este último, filme fundamental para a minha vida).

Eike Batista fez US$ 500 mil virarem US$ 6 milhões em um ano. Tinha 22 anos.

Num primeiro momento, pode parecer bobagem ficar citando essas pessoas e suas realizações, mas a verdade é que sinto um grande vazio dentro de mim. Um vazio que não sei explicar nem como preencher. Olho para trás e vejo que nada fiz, nada realizei. Cursei uma faculdade que nunca me empolgou, abri mão do sonho de fazer cinema, não casei, não tive filhos, não escrevi um livro.

Tenho me transformado em mais um autômato que trabalha, paga contas e espera. Espero por algo que nem sei o que é, por alguém que nem sei quem é, por uma vida que nem sei se quero ter. Não sou um cineasta, não sou um intelectual, não sou um homem de negócios, não sou um político, não sou um marido, não sou um pai e, a cada dia que passa, vejo que não sou um bom filho, nem um bom amigo. Esse vazio que toma conta de mim, que me atormenta não tem explicação. Não que eu esteja sofrendo, chorando pelos cantos, estou mesmo é cansado, cansado de não ser o que queria ter sido ou que talvez tenham querido que eu fosse.

Amores, realizações, conquistas tudo tende a encontrar morada no plano das ideias. Pouco ou quase nada consigo arrastar para a vida real, para a vida vivida do dia-a-dia. Mas enfim, vida que segue seu rumo de forma inercial. Vida que segue de maneira inclassificável rumo a um destino indefinido. Minha vida.

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Tabacaria, Álvaro de Campos)