Arquivo para Gilberto Mestrinho

aos mestres, com carinho…

Posted in Genealogias, homenagens with tags , , , on 05/08/2011 by coelhoraposo

Hoje (05/08/2011) faz dez anos que meu avô Plínio partiu desse plano astral rumo ao infinito. No último dia 19, fez dois que meu outro avô, Gilberto, também se foi.

Mais do que uma marca em meu sangue, ficou a marca que ambos deixaram na história de meu estado, uma marca de comprometimento com o Amazonas e com seu povo. Homens públicos dignos são sempre raros de encontrar, por isso tenho muito orgulho de ser neto de dois dos maiores homens públicos que o Amazonas e o Brasil conheceram.

Vida que segue…

Gilberto (à esquerda) e Plínio (à direita), caminham em direção ao Palácio Rio Negro para a transmissão do cargo de governador do Amazonas, em 1959. (Foto: arquivo PMDB/Amazonas)

qual o sentido da coerência? – parte I

Posted in Genealogias, realpolitik with tags , , , , , , on 02/10/2010 by coelhoraposo

Qual o sentido da coerência?
Dizem que é prudente observar a História sem sofrer.
Até que um dia, pela coincidência,
As massas tomem o poder…
Ando nas ruas e vejo o povo fraco, abatido,
Este povo não pode acreditar em nenhum partido.
Este povo cuja tristeza apodreceu o sangue
Precisa da morte mais do que se pode supor.
O sangue que em seu irmão estimula a dor,
O sentimento do nada que faz nascer o amor,
A morte enquanto fé e não como temor.

(trecho de Terra em Transe , 1967 – Glauber Rocha)

Neste domingo teremos mais um eleição geral no país: votaremos (ou não) para presidente, governador, dois senadores, deputados federal, estadual e distrital (no caso de Brasília). Quem me conhece minimamente sabe que sempre tive uma relação uma relação de amor e ódio com política eleitoral: desde meus arroubos anarquistas a minha aventura como candidato em 2006. Sempre busquei manter distância disso tudo e quase consegui, muito por obra e graça da minha mãe que optou por me criar em Brasília. Porém, acabei sendo dragado pelo redemoinho da política.

Plínio Ramos Coelho, fiel até sua morte em 2001 ao trabalhismo fundado por Getúlio Vargas, foi deputado estadual, federal, governador por dois mandatos (1955-58 e 1963-64) e um dos maiores advogados e oradores que o Amazonas já viu (seus discursos só eram comparáveis, em termos de brilhantismo, aos do Senador Arthur Virgílio Filho). Plínio, ou Ganso do Capitólio (ou ainda “pata-choca”, como era chamado por seus adversários), foi responsável por uma verdadeira revolução administrativa num estado falido, abandonado à sua própria sorte após a decadência do fausto da borracha no início do século 20. Ao seu lado, Plínio tinha o apoio de um jovem assessor que logo se tornara seu principal conselheiro e amigo. Após nomeá-lo prefeito de Manaus, Plínio ajudou a fazer surgir o maior mito da política amazonense: Gilberto Mestrinho de Medeiros Raposo, governador por três vezes (1959-62, 1983-86 e 1991-94) deputado federal e senador.

O trabalho em conjunto desses dois grandes homens ecoa até hoje e são as fundações sólidas que baseiam o desenvolvimento deste Amazonas forte e pujante. Tenho muito orgulho de descender destes dois homens, meus avôs. Orgulho que vem acompanhado da responsabilidade de carregar o legado de integridade e paixão pelo Amazonas e seu povo.

Filho de Gilberto Mestrinho, João Thomé também tem uma história de devoção ao seu estado, principalmente ao interior, a quem dedicou grande parte de sua vida. Eleito deputado estadual em 1982, Thomé participou ativamente da administração de seu pai. Quando o assunto foi a implantação de assentamentos, por exemplo, não pensou duas vezes em se mudar para o interior e acompanhar de perto a instalação das famílias e na promoção da educação, saúde e da capacitação técnica. João Thomé também foi fundamental durante a primeira administração municipal de Amazonino Mendes, administrando à quatro mãos a capital amazonense e saneando boa parte da cidade e dando início, em conjunto com o governo de Mestrinho, ao projeto Manaus Moderna – que resultou no bem sucedido PROSAMIM.

Adib Mamed Assi, Amazonino Mendes, Fábio Lucena e João Thomé visitando obras de saneamento da Vila Mamão, circa 1984

Reeleito deputado estadual em 1986, continuou a trabalhar como sempre trabalhara, atendendo as pessoas em seu gabinete até o último cidadão e viajando pelo interior do estado sempre levando sua mensagem de que o poder político só tem validade quando emana realmente do povo. Em 1991 assumiu a Secretaria de Produção Rural colocando em prática muitos de seus sonhos e projetos que visavam a emancipação do interior do Amazonas. Com a eleição de Eduardo Braga como vice-prefeito de Manaus em 1992, Thomé assumiu o mandato de deputado federal sendo reeleito em 1994. Em 1998, já desgostoso com os rumos tomados com a classe política, decidiu se dedicar unicamente ao seu projeto de desenvolver a piscicultura no Amazonas. No início foi taxado de louco por alguns (“imagine, cavar buraco para criar peixe no Amazonas”), mas é inegável que hoje a piscicultura é uma realidade e proporciona dignidade e trabalho para muitas pessoas, principalmente no abandonado interior amazonense.

Com a morte de Mestrinho em 2009, Thomé foi convocado por muitos dos amigos do ex-governador para dar continuidade ao trabalho do pai e tentar recuperar a imagem corrente (e muitas vezes verdadeira) do político como uma classe sem coerência, sem ética e vendilhona. A omissão sempre é a pior opção, principalmente quando se tem consciência – por experiência própria; de que é possível sonhar num mundo mais justo, mais igualitário, mais humano e menos corrupto e cínico. Num mundo onde a Lei de Gérson impera, é possível sim sonhar que além do horizonte de trevas que se impõe exista um lugar melhor para todos. E isso só é possível quando realizado coletivamente. Por isso apóio João Thomé para a Assembléia Legislativa do Amazonas, não por ele ser meu pai, mas pela certeza de que ele seria um dos poucos deputados que, com toda a certeza, poderiam realmente ostentar o título de representante da sociedade e lá estaria para fazê-la representada e não para abrir um balcão de negócios e, com um sorriso no rosto, se locupletar como a grande maioria dos que lá estão.

Pra mim, a coerência de João Thomé vale muito mais do que os milhões gastos por muitos candidatos. A sensação é a do dever cumprido. Esse é o sentido da nossa coerência.