Arquivo para Bossa Nova

perfume do amor

Posted in apud, homenagens, musique non stop with tags , , , , on 09/02/2012 by coelhoraposo

Não é de hoje que falo da minha admiração por Alfredo José da Silva, ou simplesmente Johnny Alf (1929-2010). Registrei seus 80 anos em 2009 e incluí o fantástico Eu & a Bossa na lista dos álbuns que mudaram o meu mundo

Hoje acordei com Alf na cabeça, mais especificamente o pot-pourri de Vinícius de Moraes (“O grande amor/Valsa de Eurídice/Medo de amar”), que está logo abaixo.

Difícil não se emocionar.

Eu me emociono.

* * *

É claro que Johnny não só ouvia tudo isso. Ele cantava e reinventava toda a fossa à sua maneira. Uma maneira, digamos para simplificar, muito mais ao estilo Dick Farney do que ao estilo Nelson Gonçalves.

Sérgio Porto, fã declarado de Alf, me disse certa vez que toda a história da bossa nova começou com ele, a quem considerava o avô do movimento. Porque, segundo Sérgio, ele foi o pai dos pais da bossa, já que João Gilberto e Tom Jobim, além de Lyra, Menescal, Sérgio Ricardo e o próprio Vinícius sempre iam ouvir nas boates do Rio o toque e o canto “avançadíssimo” de Johnny.

Exagero ou não – e mesmo considerando, como eu, que a bossa nova nasceu da batida do violão de João Gilberto – Johnny é mesmo o legítimo titular de tantas originalidades. E por todas as razões. A começar pelo extraordinário legado de seus discos antológicos, realizados ao longo desses cinqüenta anos de carreira. Aliás, nem tantos assim como seu talento e criatividade deveriam merecer. E, finalmente, por sua monástica modéstia. Que, num país sempre ingrato com quem vale a pena de verdade, o fez esconder-se da fama que lhe é devida.

Hoje, Johnny Alf trabalha como há meio século. Compõe novas canções a cada dia, acumulando, ao que me disse há pouco, centenas de músicas inéditas. Que, no andar da carruagem pachorrenta deste país, só serão conhecidas pra valer nas próximas décadas.

Ricardo Cravo Albin

Fonte: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

elis & nara. nara & elis.

Posted in homenagens, musique non stop with tags , , , , , , , on 19/01/2012 by coelhoraposo

No dia 19 de janeiro de 1982, Nara Leão completou 40 anos de idade.

No dia 19 de janeiro de 1982, Elis Regina morria aos 36 anos de idade.

Hoje, 30 anos depois da morte de Elis, Nara completaria 70 anos, caso o câncer não a tivesse levado.

Elas formam as duas faces da revolução que a década de 60 representou na música brasileira. Foram rivais históricas, a imprensa da época registrou as inúmeras alfinetadas que Elis dava em Nara, acusando-a de “trair todos os movimentos” aos quais ela se associava. Nara nunca foi uma grande cantora, ao contrário do vulcão em permanente erupção que era Elis. Mas Nara era inteligente e tinha o feeling musical que Elis construiu ao longo de sua carreira. Nara abraçou a bossa nova, o morro, a jovem guarda, o tropicalismo. Elis não gostava muito do novo. Nara era elétrica. Elis, acústica. Até no amor, elas foram de certa maneira rivais: Ronaldo Bôscoli foi o grande amor da juventude de ambas. Nara, irrequieta, calculava seus passos musicais. Elis, dona de uma potência vocal única, fazia os compositores irem atrás dela. A grande guinada de Elis se deu quando já era uma cantora estabelecida (graças ao marido e maestro, César Camargo Mariano). A guinada de Nara se deu antes mesmo do primeiro álbum dando voz ao morro e abandonando o “amor, o sorriso e a flor” da Bossa Nova.

Morreram jovens. Fizeram muito.

Que tenham feito as pazes, porque elas foram o yin e yang da música brasileira.

os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo – as menções honrosas

Posted in Genealogias de minhas paixões, listas, musique non stop, os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 17/08/2011 by coelhoraposo

Quando há mais de um ano decidi fazer uma lista dos álbuns que mudaram a minha forma de escutar música e que me ajudaram a ser o que sou hoje, tive a ambição de delimitar em 5 o número dos discos memoráveis. Logo percebi ser impossível. Terminei em 25.

Para corrigir alguns esquecimentos imperdoáveis, listo mais 10. São dez álbuns que fazem parte do meu universo musical mais restrito e pelos quais tenho carinho especial.

Assim, vejo que 5 se transformaram em 35… Enfim, síntese nunca foi o meu forte.

Agora, quem me conhece sabe que tem um álbum que está faltando nessa longa lista. Alguém se habilita?

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Catavento e Girassol (1996) – Leila Pinheiro

clique para a ficha técnica (Fonte: http://www.discosdobrasil.com.br)

Leila cantando as composiçõoes de Guinga e Aldir Blanc… lindo de chorar

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Corredor Polonês (1987) – Patife Band

clique para ouvir Fernando Pessoa, versão punk dodecafônico

A energia do punk se encontra com a dodecafonia: explosivo e genial

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Eu e a Bossa (1999) – Johnny Alf

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Garimpado nos saldões de CD da vida, uma amostra da pedra preciosa que foi mestre Alf

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Máquina de Escrever Música (2000) – Moreno +2

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Felizmente nem só de Los Hermanos vive a cena carioca metida a hipster. Evoé Moreno! Evoé Domenico! Evoé Kassin!

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Money for Nothing (1988) – Dire Straits

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Porque o primeiro bolachão a gente nunca esquece…

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Nara (1964) – Nara Leão

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A musa da Bossa Nova decide subir o morro para mostrar que agora era a vez deles: dela e do morro

Rain Dogs (1985) – Tom Waits

clique para review do álbum (Fonte: http://www.allmusic.com)

Tom Waits no auge de sua “margenialidade”

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Roberto Carlos (1971) – Roberto Carlos

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Todos que torcem o nariz para o rei mesmo após a audição deste clássico de 71, estão surdos!

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Rumo aos Antigos (1980) – Grupo Rumo

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Porque para ousar fazer o novo, é preciso estudar e reinventar o passado. (Ouça no grooveshark)

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Trem Caipira (1985) – Egberto Gismonti

clique para a ficha-técnica (Fonte: http://www.discosdobrasil.com.br)

Gismonti, Villa-Lobos e sintetizadores: sintonia fina

os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo – parte 3 de 5

Posted in Genealogias de minhas paixões, listas, musique non stop, os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo with tags , , , , , , on 18/08/2010 by coelhoraposo

Depois de um longo hiato, a terceira parte lista! Depois diga o que acharam.

O Grande Show, ao vivo no Procópio Ferreira , 1979 – Baden Powell

Se João Gilberto criou a batida da Bossa Nova, Baden Powell é criou um estilo único de ataque ao violão: selvagem e tecnicamente impecável. Sem Baden Powell não teríamos tido Raphael Rabello nem Yamandu Costa, seus seguidores. Conheci Baden através de meu pai, que na década de 70 teve o prazer de conviver com o violonista nas rodas de samba que frequentadas por ambos no Recreio dos Bandeirantes. Cresci ouvindo falar dele até que um belo dia comprei esse vinil duplo que registra o show de retorno de Baden ao Brasil, depois de alguns anos morando na Europa.

Show fantástico produzido pelo jornalista Sérgio Cabral, registra Baden no auge de sua maturidade musical, interpretando standards da música brasileira, sendo muitos deles de sua autoria, seja com Vinícius de Moraes (“Samba da Bênção”, “Tempo Feliz”, “Berimbau” e “Canto de Ossanha”), seja com a magistral “Refém da Solidão”, composta com Paulo César Pinheiro, temas próprios como “Petit Valsa” e “Tributo a Juazeiro” , além de reinterpretações geniais como uma versão calcada no blues de “Asa Branca”, clássico indispensável de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira e uma versão frenética de “A Lenda do Abaeté”, de Dorival Caymmi.

A banda que acompanha Baden Powell merece destaque: o baixista Saulo Bezerra de Melo, Don Bira e Jorginho Cebion na percussão, além da sensacional bateirista Lilian Carmona. Um álbum que qualquer amante da música brasileira que se preze deveria, ao menos uma vez, escutar. Pena que nunca tenha sido relançado em CD. Parabéns aos sortudos qua o tenham em vinil.

Harvest, 1972 – Neil Young

Comprei esse álbum na loja Musical Center numa manhã de sábado, não tinha muito o que esperar dele. Para mim, Neil Young só era mais um nome daqueles que a gente sabe que precisa respeitar mas não sabe muito bem o porquê. Ao chegar em casa e escutar aos primeiros acordes de “Out Of The Weekend”, vi que tinha em mãos um tesouro: daqueles que não se pode vender, trocar, emprestar. Logo me tornei fã incondicional dele e de toda a sua obra. Ao som desse álbum, já chorei, já me alegrei, me pacificou… Desde então, I’ve been a miner for a heart of gold!

Histoire de Melody Nelson, 1971 – Serge Gainsbourg

Certa vez, conversando com Sérgio Moriconi – uma das minhas grandes influências, cinematográfica e musicalmente falando; ele me contou sobre a caixa com a obra integral de Gainsbourg. Não o conhecia, para mim era só o “cara que fez” Je t’aime, moi non plus: a música e o filme. Ao longo dos anos, dele ouvi uma coisa aqui, outra ali, até que me deparei com este álbum na internet, em alguma lista dos mais influentes álbuns da década de 1970: Histoire de Melody Nelson é qualquer coisa de fantástico. Os 30 e poucos minutos de duração passam num instante e você quer ouvi-lo novamente o tempo todo. Em um post passado, descrevi o sentimento de estupefação que me tomou ao escutá-lo pela primeira vez: cliquem no link acima e ouçam do que estou falando.

Jobim, 1970 – Victor Assis Brasil

No La Película Café, que minha mãe teve entre 1995 e 2005 no Cine Brasília, também funcionava uma pequena livraria que tinha um acervo pequeno, porém bem sortido de livros de arte, poesia, anarquismo etc. Durante um certo período, também tivemos CD’s à venda: uma loja, já extinta, deixara vários títulos em consignação para vendermos. Desnecessário dizer que a grande maioria deles foram adquiridos por mim mesmo. Entre eles estava este do fenomenal saxofonista Victor Assis Brasil, interpretando clássicos do Tom Jobim. Jazz da melhor qualidade. Uma pena que Assis Brasil tenha vivido tão pouco, seria uma unanimidade.

Little Creatures, 1986 – Talking Heads

A banda liderada por David Byrne é algo impossível de rotular: é new wave? É pós-punk? É world music? É art rock? Eu, particularmente não sou afeito a rótulos, gosto de música boa, este é minha maneira de classificar música. E Talking Heads não é bom: é genial! Deveria ter uns 14 anos e estava de férias no Rio de Janeiro com minha mãe, quando ela comprou alguns vinis vendidos por um ambulante da rua do Catete. Dentre eles, estava uma cópia já meio surrada deste Little Creatures, algumas canções já tinha escutado em algum momento.

Como no caso da escolha de Avalon, para representar Roxy Music nesta listagem, Little Creatures não é meu álbum preferido do Talking Heads, mas além de ter sido minha porta de entrada para seu universo musical, ele é uma sucessão de canções fantasticamente bem produzidas, com letras fantásticas e arranjos que resgatam as raízes do country, sem ser algo excessivo e sem perder algo que – também como a banda de Bryan Ferry – é fundamental para a consolidação de um grupo de música: a capacidade de não comprometer sua visão artística mesmo sendo altamente pop. A lista de músicas é uma sucessão de canções que te botam pra cima, deixando um sorriso no seu rosto. É o último grande álbum do Talking Heads antes do fim da banda no início da década de 1990, quando Byrne se lançou ao mundo como um verdadeiro arqueólogo musical, através de seu selo Luaka Bop. Mas isso é assunto para o 25º membro desta lista.