Arquivo para Arnaldo Baptista

glenlivet e singin’ alone

Posted in Divã, vomitando palavras with tags , , , , on 29/06/2011 by coelhoraposo

“And all she has to say is `sing your song, boy’ “

Certos dias não deveriam ter existido. Ontem foi um deles, um turbilhão de emoções que me arrastam para sensações que pensava estarem todas enterradas, soterradas pelo tempo.

Dizem que o tempo cura tudo, talvez seja verdade. Mas enquanto não comprovo na própria alma e na própria carne, foi bom poder ter me servido de um dose de Glenlivet, ao som do visceral Singin’ Alone, do mutante Arnaldo: não cura, mas acalma.

E ainda trouxe bons ares: fui convencido a ir para o já tradicional karaokê de terça e, em vez de ficar cantando e contando sozinho minhas mágoas e frustrações, fui celebrar a música e a vida com amigos queridos. (Obrigado, pessoal!)

Hoje, me sinto um tanto quanto melhor, um pouco menos confuso, um pouco mais limpo.

Mas mesmo assim, ficou o dito pelo não dito.

Vida que segue………………………………………………………………………………………….>>>

os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo – parte 4 de 5

Posted in Genealogias de minhas paixões, listas, musique non stop, os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo with tags , , , , on 12/11/2010 by coelhoraposo

Loki?, 1974 – Arnaldo Baptista

“Hoje percebi, que venho me apegando as coisas materiais, que me dão prazer…”

Creio que Os Mutantes sejam uma das poucas unanimidades neste país, em se tratando de rock’n’roll: pode-se não gostar, mas é inegável o papel desempenhado pela banda na popularização do gênero no Brasil. A banda formada pelos irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, Rita Lee, Dinho Leme e Liminha levou o tropicalismo baiano ao encontro da psicodelia – e da lisergia – do final da década de 1960, fundindo samba, rock’n’roll, arranjos de música erudita num caldeirão sonoro apimentado com a juventude de todos.

Apesar de Sérgio ser o virtuose do grupo, era Arnaldo o núcleo criativo. E este núcleo implodiu quando o casamento de Arnaldo com a colega de banda Rita Lee acabou e ela saiu da banda. O mundo de Arnaldo desabou por completo e talvez não tenha sido reconstruído até hoje, basta assistir ao tocante documentário sobre sua vida, já resenhado por este blog.

Arnaldo logo abandonou Os Mutantes também deixando o irmão Sérgio levar adiante suas experiências com o rock progressivo. Seu primeiro trabalho solo, Loki? traz um compositor atormentado, saudoso, irônico, além de músico fantástico que consegue imprimir em cada uma das 10 canções uma maturidade musical quase assustadora. O produtor do álbum foi Roberto Menescal, um dos pilares da Bossa Nova, mas por mais estranho que possa parecer essa parceria não soa artificial, talvez por Menescal não impor nenhuma amarra para a criatividade de Arnaldo, como fica claro em “Cê tá pensando que eu sou lóki?” é a prova disso: uma bossa-nova psicodélica arranjada pelo parceiro dos tempos de Mutantes, o maestro Rogério Duprat. Talvez nenhum outro álbum consiga traduzir o sentimento da separação, do abandono e da saudade como Loki? E é toda essa dor que talvez tenha feito com que Arnaldo se empenhasse tanto neste álbum, seja como exímio multi-instrumentista, seja como compositor inspirado: uma esperança de reconquistar o amor perdido? Se era isso, não foi feliz. Mas nos legou um álbum fundamental em qualquer coleção de discos que se preze.

Lugar Comum, 1975 – João Donato

“Beira do mar, lugar comum, começo do caminhar, pra beira de outro lugar…”

João Donato é um dos meus músicos preferidos. As razões são várias, mas a principal é ele ser possuidor de uma das principais qualidades que procuro num artista: desconhecer fronteiras. Essa multiplicidade presente na obra de João Donato pode ser sintetizada em dois álbuns: Quem é quem?, de 1973 (considerado por ele seu melhor trabalho) e este Lugar Comum, de 1975. O acreano que tocava acordeon e frequentava o Sinatra-Farney Fan Club no início da década de 1950, logo migrou para o piano e se transformou em referência bossa-novista ainda nos anos 1960, quando o movimento surgido na Zona Sul carioca ganhou o mundo. No final da década de 1960 se mudou para os EUA e lá se consolidou como um dos nomes mais proeminentes do jazz feito no Brasil. Foi também nos EUA que ele realizou trabalhos com aquele que logo se transformaria em um dos maiores produtores da música pop internacional: o compatriota Eumir Deodato. Foi neste período de ebulição sonora, com Jimi Hendrix colocando fogo, literalmente, na sua guitarra, Miles Davis arrebentando fronteiras sonoras com Bitches Brew, das experiências lisérgicas do LSD e da mescalina e tantas outras mudanças sociais; que os dois produziram A Bad Donato, de 1970 que funde tudo isso com a cultura brasileira: Bossa Nova se encontra com o jazz fusion.

Entretanto,  A Bad Donato é uma obra com a assinatura de Eumir Deodato, mais do que de João Donato. Retornando ao Brasil em 1973, realizou o maravilhoso Quem é Quem? e mais tarde, em 1975, se juntou com o também recém-retornado Gilberto Gil que colocou letra em vários dos temas que João Donato trabalhava desde a década de 1960, como a faixa-título deste Lugar Comum, melodia que ele aprendeu ouvindo cantos de pescadores que singravam os rios amazônicos de sua terra natal que com a letra de Gil ganha uma beleza poética tão singelamente forte. Em todas as canções, fica claro o desejo de Gilberto Gil e João Donato de apresentarem um panorama da cultura latina, principalmente aquela diretamente influenciada pela música africana, através de um mosaico sonoro e letras que mais se assemelham a mantras e canções de ninar adultos. Aqui, menos é mais. Clássicos eternos como Bananeira, Lugar Comum e Emoriô têm neste álbum suas versões finais e completas. João Donato flui aqui do piano para órgãos, teclados e sintetizadores sem nunca abandonar a natureza rítmica de sua obra. Em Lugar Comum, é possível encontrar aquele pianista bossa novista do início dos anos 1960, é possível encontrar o João Donato lisérgico do início dos anos 1970, o João Donato jazzista de mão cheia que ele sempre foi, o João Donato sambista que usa o teclado de seu piano, sintetizador como um pandeiro, enfim, todos os Donatos que convivem dentro da figura bonachona e de bem com a vida que ele é e que está impressa em sua música. Quem já foi a algum show dele sabe do que estou falando.

Show, 2001 – Ná Ozzetti

Ná Ozzetti era, pra mim, somente a vocalista do grupo Rumo, grupo surgido nos anos 1970 formado pelos irmãos Luiz e Paulo Tatit, Gal Oppido, Hélio Ziskind entre outros egressos da ECA-USP. Mas ao escutar este Show pela primeira vez, uma certeza logo se cristalizou em mim: eis aqui a melhor cantora em atividade no Brasil. Continuo achando isso até hoje. Ná tem uma doçura em sua voz, ao mesmo tempo firme e suave, que cai como uma luva no repertório escolhido a dedo deste álbum de standards da música brasileira. Canções de Maysa, Dolores Duran, Fernando Lobo, Herivelto Martins, Tom Jobim, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Noel Rosa entre outros, ganharam arranjos robustos e sofisticados do irmão da cantora, Dante Ozzetti.

A partir deste álbum, comecei a procurar tudo o que Ná já tinha lançado e me encantei com seus outros lançamentos. Mas este continua o meu preferido dela porque consegue concentrar num mesmo disco canções pelas quais eu sou apaixonado, como “Chuvas de Verão”, “Meu Mundo Caiu”, “Último Desejo”, “Caminhemos” e “Na Batucada da Vida”. Não deixem de conferir, inclusive ele foi relançado pela Biscoito Fino agora em 2010. Quem puder, adquira que vale cada centavo.

Pérolas aos Poucos, 2003 – Zé Miguel Wisnik

Atualmente os dois maiores compositores da música brasileira se chamam Guinga e Zé Miguel Wisnik. E quem diz isso não sou eu: grande parte da crítica especializada e dos próprios colegas de profissão é quem afirma. Guinga, por exemplo é tido por Chico Buarque como o maior melodista surgido no Brasil há muito tempo. Caetano Veloso, por outro lado, tem Zé Miguel Wisnik como um dos compositores mais completos da geração que despontou após os anos 1980.

Pianista de formação erudita, professor de teoria literária da USP e estudioso da música (seu livro O Som e o Sentido é um livro fundamental para qualquer apreciador de música que se preze), Wisnik é um compositor que descende diretamente de um Jobim, de um Edu Lobo, passando pela ebulição criativa da vanguarda paulista dos anos 1980. Suas canções são singelas, porém melodicamente riquíssimas, com letras afiadas, sem estar amarradasa um gênero específico: transita muito bem entre o erudito e o popular. Prova disso são suas duas obras compostas para espetáculos do Grupo Corpo, dos irmãos Pederneiras: Parabelo (1996), com Tom Zé e Onqotô (2002), com Caetano Veloso. Como intérprete de suas próprias obras lançou 3 álbuns: José Miguel Wisnik (1991), São Paulo Rio (2000) e este Pérolas aos poucos (2003).

Todas as faixas de Pérolas aos poucos possuem uma coisa em comum: um piano melancolicamente tocado por Wisnik. Além disso, são todas canções confessionais, lindas, que possuem uma beleza simples que nos faz perceber que quase sempre menos é mais. “Pérolas aos poucos” (veja o clipe da música aqui), faixa de abertura que dá nome ao álbum já sintetiza, através do trocadilho da expressão “pérolas aos porcos”, tudo aquilo que Wisnik acredita na sua concepção musical: singeleza,

Além de sua capacidade autoral, sua desenvoltura ao piano, Wisnik ainda apresenta um voz que combina perfeitamente com suas composições: serena, pacificadora. Nesse aspecto, Wisnik descende dos dois maiores representantes da escola da singeleza vocal: o mandarim Mário Reis e o idiossincrático e genial João Gilberto.

Suave serena voz
que cai como sereno sonoro e suave
serenando minha mente suave mente…

(haikai-homenagem para Wisnik, por minha mãe)

Sleep Dirt, 1979 – Frank Zappa

Salvo engano, de segunda à sexta, às 17h começava Clássicos MTV, programa apresentado por Fábio Massari. Num desses programas, Massari falou de um músico que já tinha ouvido em algum lugar e logo depois apresentou um clipe dele: o vídeo era ótimo, uma animação surreal em stop-motion, mas a música, bem, a música era, no mínimo, estranhamente interessante. A música era, creio, “Night School” de Jazz From Hell (1986) único álbum vencedor de um prêmio Grammy do indescritível Frank Zappa. Logo lembrei de onde conhecia o nome dele: eram versos de Smoke on the Water do Deep Purple, clássico universal do rock que trata justamente de uma malfadada apresentação de Frank Zappa & The Mothers of Invention em Montreux, Suiça quando alguém da plateia lançou fogos de artifício dentro da casa de shows dando início ao incêndio de que trata a música.

Algum tempo depois, acho que em 1999 no meu aniversário de 16 anos, encontrei na Discoteca 2001 da 511 sul a trilha-sonora de 200 Motels, filme escrito por Zappa no início dos anos 1970, produzido pela MGM e que foi um retumbante fracasso. Edição caprichada, cd duplo, encarte volumoso, mas o som não me captou: era bizarro demais… e naquela época estava por demais encantado pela sutileza bossanovista (tinha acabado de ler Chega de Saudade, do Ruy Castro e só ouvia Bossa Nova) para me deixar levar pelo frescor revolucionário da música de Zappa.

Tempos depois, conversando com Rodrigo Laraia – vulgo Maranhão, colega de sala no 3º ano lá nos idos de 2000, ele falou apaixonadamente de Zappa – como todo guitarrista que se preze – e me emprestou este Sleep Dirt que logo passei para uma fita K7 (mp3 player? Isso existia? E Discman só servia para escutar no ônibus no trajeto casa e colégio) e passei a escutar sem parar: não sabia definir aquele som. Era jazz, era rock, era tudo isso misturado de uma maneira peculiar e original. Até então, aqueles solos de guitarra eram os mais interessantes que já tinha escutado na vida (obviamente que com o tempo, os solos mais incríveis passaram a ser… outros de Zappa). Os vocais das primeiras faixas cantados por fulana de tal, causaram certo desconforto nos fãs mais xiitas de Zappa que o acusaram de estar querendo ser pop demais (o álbum fora originalmente lançado sem vocais. Hoje sou fã incondicional, mas não xiita e acho um saco os três volumes de Shut Up ‘n Play your Guitar (compilação de solos de guitarra). O que me permite ver em Sleep Dirt um dos grandes álbuns esquecidos de Zappa. E os tais vocais da discórdia fazem uma diferença grande e além de tudo é incrível ver a fulana de tal fazendo ondulações osdfnosfosdfm com a voz em cima do solo de guitarra.

Algum tempo depois de ser capturado por Zappa, descobri acidentalmente que a Gravadora Eldorado não só tinha lançado TODA a obra dele no Brasil, como vendia em sua loja virtual por módicos R$ 12,00 cada cd simples de zappa. Foi aqui que iniciei de fato minha obsessão Zappeana: resolvi comprar toda a obra dele e de maneira cronológica para ser absorvido por sua música. Todo mês comprava 5. Após o quinto mês, descobri que os títulos estavam se esgotando, aí joguei o projeto pro alto e joguei a sistemática cronológica no lixo. Uns 60 cd’s e 2 vinis depois (entre eles, o Jazz From Hell lá do início do post, comprado na Baratos Afins novinho em folha) ainda não consegui terminar nem a discografia oficial do músico falecido em 1993, que dirá os milhares de bootlegs e piratarias (muitos deles piratarias oficiais já que Zappa pirateava seus próprios álbuns em represália às gravadoras que o escanteavam e ainda eram donas dos fonogramas). Falta muito para conhecer toda sua obra, mas continuo trabalhando para resolver essa falha de caráter. E quem não conhece, dispam-se de preconceitos e zappeiem-se!