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rock my world

Posted in canções fundamentais, estante, Genealogias de minhas paixões, homenagens, listas, musique non stop with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 14/07/2012 by coelhoraposo

Ontem foi o dia do rock, bebê! Mas me deu preguiça de postar algo sobre. Mas resolvi fazer uma listinha rápida dos maiores nomes de todos os tempos da história da humanidade de todas as galáxias do meu mundo. Por motivos óbvios (e também para caber mais gente), Beatles e Rolling Stones ficaram de fora. São hors-concours. Assim, escolhi os 20 nomes que representam o que eu considero como a créme de la créme e que sempre estão e estarão presentes nos meus cd-players, ipods, toca-discos e afins. Separei 10  bandas e 10 artistas fundamentais para sintetizar o que o rock signific pra mim. Ah, e em ordem alfabética, porque hierarquizá-los seria covardia, ok? Vamos lá!

  • Cream, porque com eles o rock virou gente grande. Agradeçam ao blues;
  • Deep Purple, porque fizeram o riff mais incrível de todos os tempos, o de “Smoke On The Water”, é claro.;
  • The Doors, porque elevou a beleza poética das letras do rock para níveis estratosféricos. Além de ter o maior band leader que uma banda poderia ter;
  • Os Mutantes, porque é a banda mais incrível já formada neste Brasilzão de meu deus;
  • Nick Cave And The Bad Seeds, porque quando você quer rimar amor com dor, misturar religião e morte e outros temas tão singelos quanto esses, você sabe a quem recorrer;
  • Pink Floyd, porque os caras inventaram o rock progressivo sem ficar chatos como o resto do rock progressivo. Além de capas de disco memoráveis;
  • Queens Of The Stone Age, porque um belo dia um tal Joshua Homme chutou a porta da casa do rock e disse: que merda é essa que você se tornou?? Vamos simplificar isso aqui e parar com frescura, porra!”
  • Roxy Music, porque rock também é estiloso, cool, glamouroso e tem o crooner mais charmoso de todos, Bryan Ferry;
  • Talking Heads, porque o rock também pode ser cabeça (não foi um trocadilho proposital, eu juro!);
  • The Who, porque é minha banda do coração e representa toda a revolta juvenil represada do pós-guerra.

E claro, temos aqueles que eram/são estrelas por si só:

  • Bob Dylan, porque… precisa mesmo explicar?
  • Chuck Berry, porque é fundamental reverenciar o pai, certo?
  • David Bowie, porque ninguém consegue se reinventar reinventando tudo ao seu redor como ele;
  • Frank Zappa, porque ele é o recordista de aparições na minha discoteca: aparece umas 50 vezes;
  • Janis Joplin, porque ela é A voz do rock and roll;
  • Jerry Lee Lewis, porque ele (e não o Elvis) deveria ser chamado de rei do rock;
  • Jimi Hendrix, porque ninguém explorou a guitarra elétrica como ele;
  • Johnny Cash, hello, he’s Johnny Cash!
  • Júlio Barroso, porque ele acabou com o marasmo progressivo ao trazer a new wave pro Brasil
  • Raul Seixas, porque ele representa o rock brasileiro como ninguém;
* * *
E como os Rolling Stones completaram 50 anos de carreira nesta semana que passou, um pouco de Stones como banda de apoio do ídolo-mor de Keith Richards (e de praticamente todo roqueiro que se preze), Muddy Waters:

os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo – as menções honrosas

Posted in Genealogias de minhas paixões, listas, musique non stop, os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 17/08/2011 by coelhoraposo

Quando há mais de um ano decidi fazer uma lista dos álbuns que mudaram a minha forma de escutar música e que me ajudaram a ser o que sou hoje, tive a ambição de delimitar em 5 o número dos discos memoráveis. Logo percebi ser impossível. Terminei em 25.

Para corrigir alguns esquecimentos imperdoáveis, listo mais 10. São dez álbuns que fazem parte do meu universo musical mais restrito e pelos quais tenho carinho especial.

Assim, vejo que 5 se transformaram em 35… Enfim, síntese nunca foi o meu forte.

Agora, quem me conhece sabe que tem um álbum que está faltando nessa longa lista. Alguém se habilita?

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Catavento e Girassol (1996) – Leila Pinheiro

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Leila cantando as composiçõoes de Guinga e Aldir Blanc… lindo de chorar

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Corredor Polonês (1987) – Patife Band

clique para ouvir Fernando Pessoa, versão punk dodecafônico

A energia do punk se encontra com a dodecafonia: explosivo e genial

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Eu e a Bossa (1999) – Johnny Alf

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Garimpado nos saldões de CD da vida, uma amostra da pedra preciosa que foi mestre Alf

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Máquina de Escrever Música (2000) – Moreno +2

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Felizmente nem só de Los Hermanos vive a cena carioca metida a hipster. Evoé Moreno! Evoé Domenico! Evoé Kassin!

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Money for Nothing (1988) – Dire Straits

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Porque o primeiro bolachão a gente nunca esquece…

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Nara (1964) – Nara Leão

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A musa da Bossa Nova decide subir o morro para mostrar que agora era a vez deles: dela e do morro

Rain Dogs (1985) – Tom Waits

clique para review do álbum (Fonte: http://www.allmusic.com)

Tom Waits no auge de sua “margenialidade”

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Roberto Carlos (1971) – Roberto Carlos

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Todos que torcem o nariz para o rei mesmo após a audição deste clássico de 71, estão surdos!

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Rumo aos Antigos (1980) – Grupo Rumo

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Porque para ousar fazer o novo, é preciso estudar e reinventar o passado. (Ouça no grooveshark)

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Trem Caipira (1985) – Egberto Gismonti

clique para a ficha-técnica (Fonte: http://www.discosdobrasil.com.br)

Gismonti, Villa-Lobos e sintetizadores: sintonia fina

os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo – parte 5 de 5

Posted in listas, musique non stop, os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo with tags , , , , , , , , on 01/07/2011 by coelhoraposo

Movido por uma espécie de necessidade de auto-conhecimento, decidi há longínquos 12 meses relacionar aqueles álbuns que foram pontos de mudança na minha vida. Depois dessa longa jornada apresento a quinta e última parte da listinha dos 25 álbuns que mudaram o mundo, o meu mundo, pelo menos.

*  *  *

Songs for the Deaf, 2002 – Queens of the Stone Age

 

Seria impensável eu fazer uma listagem dessas sem colocar algum álbum do Queens of the Stone Age, ou simplesmente QOTSA, banda liderada pelo magistral Josh Homme que tive o prazer de conhecer por intermédio da minha queridíssima salve-salve Lisa, companheira de tantas aventuras da minha vida. Foi difícil escolher um álbum específico do QOTSA porque acho todos eles fantásticos, mas com certeza este aqui é o mais coeso de todos e faz o que poucas bandas fazem atualmente com maestria: rock’n’roll da melhor qualidade sem frescura, firulas ou concessões.

 

Quase todo esse disco é composto por parcerias entre Homme e o baixista Nick Olivieri (aquele mesmo que ficou peladão no show do Rock in Rio 3). A banda-base é formada neste disco por Mark Lanegan (Screaming Trees) nos vocais, o fenomenal Dave Grohl (a alma do Nirvana, segundo muitos) na bateria, além de Josh Homme na guitarra e Olivieri no baixo.

Não tenho muito a dizer aqui, só que este foi o álbum que me reapresentou ao mundo do rock atualizando minhas referências roqueiras para o século 21. Aqui, menos é mais!

Tender Prey, 1988 – Nick Cave And The Bad Seeds

 

Quando começam os primeiros acordes da guitarra do alemão Blixa Bargeld em The Mercy Seat, faixa que abre Tender Prey, rapidamente me transporto para uns 20, 21 anos atrás: SQS 106, Twin Peaks na TV (depois do Placar Eletrônico ou do Fantástico, não lembro bem), sessões domingueiras no Cine Brasília e, especialmente, Asas do Desejo, de Wim Wenders. Lembro da minha mãe falando baixinho pra mim: essa banda que está tocando no filme é aquela do disco que estava ouvindo mais cedo…

 

Esse foi meu primeiro contato com Nick Cave And The Bad Seeds, banda liderada pelo australiano Nick Cave e que neste álbum encontra seu auge, mesmo que a banda tenha álbuns antológicos como Let Love In, de 1994; The Boatman’s Call, de 1997 e mais recentemente, o duplo – em todos os sentidos – Abbatoir Blues/The Lyre of Orpheus, de 2004, já sem Blixa Bargeld.

As canções bem produzidas são de uma maturidade sonora poucas vezes ouvidas no rock. As letras inspiradíssimas de Cave, são um deleite à parte. Enfim, Nick Cave And The Bad Seeds é umas das melhores bandas surgidas na corrente do pós-punk, mas muito melhor… É uma pena que seja tão pouco conhecida, se comparada com sua importância e qualidade.

Tommy, 1969 – The Who

O álbum conta a história do menino que, ao presenciar a morte do padrasto pelo pai recém-retornado da primeira guerra mundial, fica surdo-mudo e não é entendido, é constantemente vítima do bullying (a palavra da moda!) do primo Kevin e do assédio sexual do tio Ernie, que encontra numa mesa de pinball sua redenção e seu meio de comunicação com o mundo que o cerca, se transforma numa espécie de guru, um novo messias que logo passa a ser objeto de adoração e de rentabilidade para a família e que, perceber isso, manda seus seguidores o rejeitarem e perceberem o caminho da iluminação não está nos gurus de plantão, mas sim em si mesmos.

Tommy é um libelo contra a opressão, seja ela física, social, política, moral e espiritual. Canções maravilhosas e clássicos instantâneos do rock’n’roll como a imortal Pinball Wizard (que reza a lenda nem fazia parte do disco, mas que foi incluída para agradar um crítico da revista Rolling Stone). Enfim, um álbum que dispensa apresentações.

Urubu, 1976 – Antonio Carlos Jobim

Com o golpe militar em 1964 e a necessidade lutar contra o regime imposto pelas armas, a arte e a cultura de massas foram vistas por muitos intelectuais e artistas como uma das principais trincheiras de resistência. Para isso, era preciso rejeitar o que era “passado”. Some-se a isto o fato da ascenção do rock e da jovem guarda. Pronto, está pronta a fórmula que classificou a Bossa Nova como algo retrógado, “de burguês”, comodista e que não tinha valor político. Com isso, muitos de seus expositores foram do céu ao inferno, taxados de despolitizados, entreguistas, adoradores dos EUA etc. Naquele momento era “caminhar e cantar e seguir a canção” ou era ser um conformista que fala da “onda que se ergueu no mar”. Não tinha meio termo. Ninguém entendeu o que Tom Jobim e Chico Buarque quiseram dizer em Sabiá, o Maracanãzinho inteiro vaiou a canção: queriam algo didático, direto. Assim, a principal mente criativa do que se convencionou chamar de Bossa Nova, foi obrigado a partir para um auto-exílio nos EUA.

Foi nesse período em que ele se consolidou como um dos maiores nomes da música mundial, gravando, compondo. Mas isso não era o bastante: precisava desse país que ele chamava de seu mesmo sabendo que aqui não é o paraíso na terra. “O Brasil não é para principiantes”, afirmou certa vez, mesmo assim, tudo o que produzia o remetia à terra mãe. Este Urubu, sintetiza toda essa busca infinita pelo carinho materno da pátria. Só que Jobim dizia isso em acordes e em harmonias perfeitas, não mandava pegar em armas, estimulava uma emancipação pautada no belo e no amor coletivo pela sua nação. Esse foi seu grande pecado.

20 Preferidas, 1997 – Tom Zé

Quando se fala em Tom Zé, logo se fala do genial Estudando o Samba (1976), da capa antológica de Todos os Olhos (1973) ou ainda Com Defeito de Fabricação (1998), a volta triunfal de Tom Zé pelas mãos do talking head David Byrne. Mas existe um álbum meio esquecido na obra de Tom Zé, raríssimo de achar seja em vinil ou CD (sim, existe uma prensagem em CD): trata-se de Tom Zé (1970). Este álbum poderia ser encarado como o resultado de exercícios de composição que preparavam o Tom Zé que 2 anos depois lançaria álbum homônino, que seria rebatizado nos anos 80 de Se o Caso é Chorar (1972). Neste álbum de 1970, podemos encontrar um Tom Zé ainda preocupado com o formato tradicional da canção, flertando com a jovem guarda, distorcendo algumas guitarras e, principalmente desenvolvendo seus jogos de palavras e inserindo exercícios de poesia concreta em parte das canções – destaca-se aqui a influência e participação direta de Augusto de Campos no álbum.

“Mas peraí: o Thiago coloca um disco na lista e tá falando de outro?”, você pode estar se perguntando, mas acontece que por um desses caprichos insanos dessas gravadoras brasileiras, no caso a RGE (atualmente Som Livre, braço fonográfico da Globo), o álbum teve uma reedição obscura em CD e depois cometeram o crime de fazer esta compilação “frankenstein” (20 Preferidas) que inclui todo o álbum de 1970 mais alguns singles lançados por Tom Zé na década de 60 e algumas faixas do pouco conhecido Nave Maria (1984). O resultado é uma colcha de retalhos que, apesar de descaracterizar um álbum inteiro de Tom Zé, serviu pra mim para ser a porta de entrada para a obra de um dos artistas mais completos e geniais que a música brasileira já viu e, principalmente, ouviu.

*  *  *

Então é isso, 12 meses e 25 álbuns depois, estão aí os discos que mudaram minha vida e que continuam influenciando-a e abrindo novas portas. Claro que muitos outros poderiam estar nessa lista, mas estes 25 representam bem todos. Ou não…

continua

são paulo non stop

Posted in Genealogias de minhas paixões, listas, relaxing times with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 22/04/2011 by coelhoraposo

Bolinho de risoto no Genésio, passadinha na Livraria da VilaTiê no Auditório Ibirapuera, sanduíche de pernil no BH Lanches, Lúcio Ribeiro e Jägermeister no Beco 203, Pastel na Benedito Calixto, festa bizarra em Higienópolis, Formula 1 na Pão de Ouro, kafta no Halim, caipirinhas mil na festa da laje, almoço indiano no Gopala Hari, Brahma Black na Cervejaria São Jorge (ex-Salve Jorge), sukiyaki fantástico no Sushi-Yassu, Ná Ozzetti no SESC Vila Mariana, coxinha maravilhosa no Veloso, o monstruoso lanche de mortadela no Hocca Bar/Mercado Municipal, visita a Pinacoteca (exposições de Paula Rego e Aleksandr Ródtchenko), filé ao molho de gorgonzola no Empório da Lapa com o tio, cantorias sem fim no Karaokê Samurai, monumental Filé à Parmegiana do  L’Osteria do Piero, pizza na casa dos primos, dancei muito vi a galera dançar muito no Green Express (a maior concentração de gatas de São Paulo. NOT), balada fraquinha no Tapas Club, bolinho de couscous e Espeto de Meca com arroz mediterrâneo no Tanger, Virada Cultural e hambúrguer delicioso na Lanchonete da Cidade… E tudo com as melhores companhias! Até a próxima, São São Paulo, meu amor…

os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo – parte 4 de 5

Posted in Genealogias de minhas paixões, listas, musique non stop, os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo with tags , , , , on 12/11/2010 by coelhoraposo

Loki?, 1974 – Arnaldo Baptista

“Hoje percebi, que venho me apegando as coisas materiais, que me dão prazer…”

Creio que Os Mutantes sejam uma das poucas unanimidades neste país, em se tratando de rock’n’roll: pode-se não gostar, mas é inegável o papel desempenhado pela banda na popularização do gênero no Brasil. A banda formada pelos irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, Rita Lee, Dinho Leme e Liminha levou o tropicalismo baiano ao encontro da psicodelia – e da lisergia – do final da década de 1960, fundindo samba, rock’n’roll, arranjos de música erudita num caldeirão sonoro apimentado com a juventude de todos.

Apesar de Sérgio ser o virtuose do grupo, era Arnaldo o núcleo criativo. E este núcleo implodiu quando o casamento de Arnaldo com a colega de banda Rita Lee acabou e ela saiu da banda. O mundo de Arnaldo desabou por completo e talvez não tenha sido reconstruído até hoje, basta assistir ao tocante documentário sobre sua vida, já resenhado por este blog.

Arnaldo logo abandonou Os Mutantes também deixando o irmão Sérgio levar adiante suas experiências com o rock progressivo. Seu primeiro trabalho solo, Loki? traz um compositor atormentado, saudoso, irônico, além de músico fantástico que consegue imprimir em cada uma das 10 canções uma maturidade musical quase assustadora. O produtor do álbum foi Roberto Menescal, um dos pilares da Bossa Nova, mas por mais estranho que possa parecer essa parceria não soa artificial, talvez por Menescal não impor nenhuma amarra para a criatividade de Arnaldo, como fica claro em “Cê tá pensando que eu sou lóki?” é a prova disso: uma bossa-nova psicodélica arranjada pelo parceiro dos tempos de Mutantes, o maestro Rogério Duprat. Talvez nenhum outro álbum consiga traduzir o sentimento da separação, do abandono e da saudade como Loki? E é toda essa dor que talvez tenha feito com que Arnaldo se empenhasse tanto neste álbum, seja como exímio multi-instrumentista, seja como compositor inspirado: uma esperança de reconquistar o amor perdido? Se era isso, não foi feliz. Mas nos legou um álbum fundamental em qualquer coleção de discos que se preze.

Lugar Comum, 1975 – João Donato

“Beira do mar, lugar comum, começo do caminhar, pra beira de outro lugar…”

João Donato é um dos meus músicos preferidos. As razões são várias, mas a principal é ele ser possuidor de uma das principais qualidades que procuro num artista: desconhecer fronteiras. Essa multiplicidade presente na obra de João Donato pode ser sintetizada em dois álbuns: Quem é quem?, de 1973 (considerado por ele seu melhor trabalho) e este Lugar Comum, de 1975. O acreano que tocava acordeon e frequentava o Sinatra-Farney Fan Club no início da década de 1950, logo migrou para o piano e se transformou em referência bossa-novista ainda nos anos 1960, quando o movimento surgido na Zona Sul carioca ganhou o mundo. No final da década de 1960 se mudou para os EUA e lá se consolidou como um dos nomes mais proeminentes do jazz feito no Brasil. Foi também nos EUA que ele realizou trabalhos com aquele que logo se transformaria em um dos maiores produtores da música pop internacional: o compatriota Eumir Deodato. Foi neste período de ebulição sonora, com Jimi Hendrix colocando fogo, literalmente, na sua guitarra, Miles Davis arrebentando fronteiras sonoras com Bitches Brew, das experiências lisérgicas do LSD e da mescalina e tantas outras mudanças sociais; que os dois produziram A Bad Donato, de 1970 que funde tudo isso com a cultura brasileira: Bossa Nova se encontra com o jazz fusion.

Entretanto,  A Bad Donato é uma obra com a assinatura de Eumir Deodato, mais do que de João Donato. Retornando ao Brasil em 1973, realizou o maravilhoso Quem é Quem? e mais tarde, em 1975, se juntou com o também recém-retornado Gilberto Gil que colocou letra em vários dos temas que João Donato trabalhava desde a década de 1960, como a faixa-título deste Lugar Comum, melodia que ele aprendeu ouvindo cantos de pescadores que singravam os rios amazônicos de sua terra natal que com a letra de Gil ganha uma beleza poética tão singelamente forte. Em todas as canções, fica claro o desejo de Gilberto Gil e João Donato de apresentarem um panorama da cultura latina, principalmente aquela diretamente influenciada pela música africana, através de um mosaico sonoro e letras que mais se assemelham a mantras e canções de ninar adultos. Aqui, menos é mais. Clássicos eternos como Bananeira, Lugar Comum e Emoriô têm neste álbum suas versões finais e completas. João Donato flui aqui do piano para órgãos, teclados e sintetizadores sem nunca abandonar a natureza rítmica de sua obra. Em Lugar Comum, é possível encontrar aquele pianista bossa novista do início dos anos 1960, é possível encontrar o João Donato lisérgico do início dos anos 1970, o João Donato jazzista de mão cheia que ele sempre foi, o João Donato sambista que usa o teclado de seu piano, sintetizador como um pandeiro, enfim, todos os Donatos que convivem dentro da figura bonachona e de bem com a vida que ele é e que está impressa em sua música. Quem já foi a algum show dele sabe do que estou falando.

Show, 2001 – Ná Ozzetti

Ná Ozzetti era, pra mim, somente a vocalista do grupo Rumo, grupo surgido nos anos 1970 formado pelos irmãos Luiz e Paulo Tatit, Gal Oppido, Hélio Ziskind entre outros egressos da ECA-USP. Mas ao escutar este Show pela primeira vez, uma certeza logo se cristalizou em mim: eis aqui a melhor cantora em atividade no Brasil. Continuo achando isso até hoje. Ná tem uma doçura em sua voz, ao mesmo tempo firme e suave, que cai como uma luva no repertório escolhido a dedo deste álbum de standards da música brasileira. Canções de Maysa, Dolores Duran, Fernando Lobo, Herivelto Martins, Tom Jobim, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Noel Rosa entre outros, ganharam arranjos robustos e sofisticados do irmão da cantora, Dante Ozzetti.

A partir deste álbum, comecei a procurar tudo o que Ná já tinha lançado e me encantei com seus outros lançamentos. Mas este continua o meu preferido dela porque consegue concentrar num mesmo disco canções pelas quais eu sou apaixonado, como “Chuvas de Verão”, “Meu Mundo Caiu”, “Último Desejo”, “Caminhemos” e “Na Batucada da Vida”. Não deixem de conferir, inclusive ele foi relançado pela Biscoito Fino agora em 2010. Quem puder, adquira que vale cada centavo.

Pérolas aos Poucos, 2003 – Zé Miguel Wisnik

Atualmente os dois maiores compositores da música brasileira se chamam Guinga e Zé Miguel Wisnik. E quem diz isso não sou eu: grande parte da crítica especializada e dos próprios colegas de profissão é quem afirma. Guinga, por exemplo é tido por Chico Buarque como o maior melodista surgido no Brasil há muito tempo. Caetano Veloso, por outro lado, tem Zé Miguel Wisnik como um dos compositores mais completos da geração que despontou após os anos 1980.

Pianista de formação erudita, professor de teoria literária da USP e estudioso da música (seu livro O Som e o Sentido é um livro fundamental para qualquer apreciador de música que se preze), Wisnik é um compositor que descende diretamente de um Jobim, de um Edu Lobo, passando pela ebulição criativa da vanguarda paulista dos anos 1980. Suas canções são singelas, porém melodicamente riquíssimas, com letras afiadas, sem estar amarradasa um gênero específico: transita muito bem entre o erudito e o popular. Prova disso são suas duas obras compostas para espetáculos do Grupo Corpo, dos irmãos Pederneiras: Parabelo (1996), com Tom Zé e Onqotô (2002), com Caetano Veloso. Como intérprete de suas próprias obras lançou 3 álbuns: José Miguel Wisnik (1991), São Paulo Rio (2000) e este Pérolas aos poucos (2003).

Todas as faixas de Pérolas aos poucos possuem uma coisa em comum: um piano melancolicamente tocado por Wisnik. Além disso, são todas canções confessionais, lindas, que possuem uma beleza simples que nos faz perceber que quase sempre menos é mais. “Pérolas aos poucos” (veja o clipe da música aqui), faixa de abertura que dá nome ao álbum já sintetiza, através do trocadilho da expressão “pérolas aos porcos”, tudo aquilo que Wisnik acredita na sua concepção musical: singeleza,

Além de sua capacidade autoral, sua desenvoltura ao piano, Wisnik ainda apresenta um voz que combina perfeitamente com suas composições: serena, pacificadora. Nesse aspecto, Wisnik descende dos dois maiores representantes da escola da singeleza vocal: o mandarim Mário Reis e o idiossincrático e genial João Gilberto.

Suave serena voz
que cai como sereno sonoro e suave
serenando minha mente suave mente…

(haikai-homenagem para Wisnik, por minha mãe)

Sleep Dirt, 1979 – Frank Zappa

Salvo engano, de segunda à sexta, às 17h começava Clássicos MTV, programa apresentado por Fábio Massari. Num desses programas, Massari falou de um músico que já tinha ouvido em algum lugar e logo depois apresentou um clipe dele: o vídeo era ótimo, uma animação surreal em stop-motion, mas a música, bem, a música era, no mínimo, estranhamente interessante. A música era, creio, “Night School” de Jazz From Hell (1986) único álbum vencedor de um prêmio Grammy do indescritível Frank Zappa. Logo lembrei de onde conhecia o nome dele: eram versos de Smoke on the Water do Deep Purple, clássico universal do rock que trata justamente de uma malfadada apresentação de Frank Zappa & The Mothers of Invention em Montreux, Suiça quando alguém da plateia lançou fogos de artifício dentro da casa de shows dando início ao incêndio de que trata a música.

Algum tempo depois, acho que em 1999 no meu aniversário de 16 anos, encontrei na Discoteca 2001 da 511 sul a trilha-sonora de 200 Motels, filme escrito por Zappa no início dos anos 1970, produzido pela MGM e que foi um retumbante fracasso. Edição caprichada, cd duplo, encarte volumoso, mas o som não me captou: era bizarro demais… e naquela época estava por demais encantado pela sutileza bossanovista (tinha acabado de ler Chega de Saudade, do Ruy Castro e só ouvia Bossa Nova) para me deixar levar pelo frescor revolucionário da música de Zappa.

Tempos depois, conversando com Rodrigo Laraia – vulgo Maranhão, colega de sala no 3º ano lá nos idos de 2000, ele falou apaixonadamente de Zappa – como todo guitarrista que se preze – e me emprestou este Sleep Dirt que logo passei para uma fita K7 (mp3 player? Isso existia? E Discman só servia para escutar no ônibus no trajeto casa e colégio) e passei a escutar sem parar: não sabia definir aquele som. Era jazz, era rock, era tudo isso misturado de uma maneira peculiar e original. Até então, aqueles solos de guitarra eram os mais interessantes que já tinha escutado na vida (obviamente que com o tempo, os solos mais incríveis passaram a ser… outros de Zappa). Os vocais das primeiras faixas cantados por fulana de tal, causaram certo desconforto nos fãs mais xiitas de Zappa que o acusaram de estar querendo ser pop demais (o álbum fora originalmente lançado sem vocais. Hoje sou fã incondicional, mas não xiita e acho um saco os três volumes de Shut Up ‘n Play your Guitar (compilação de solos de guitarra). O que me permite ver em Sleep Dirt um dos grandes álbuns esquecidos de Zappa. E os tais vocais da discórdia fazem uma diferença grande e além de tudo é incrível ver a fulana de tal fazendo ondulações osdfnosfosdfm com a voz em cima do solo de guitarra.

Algum tempo depois de ser capturado por Zappa, descobri acidentalmente que a Gravadora Eldorado não só tinha lançado TODA a obra dele no Brasil, como vendia em sua loja virtual por módicos R$ 12,00 cada cd simples de zappa. Foi aqui que iniciei de fato minha obsessão Zappeana: resolvi comprar toda a obra dele e de maneira cronológica para ser absorvido por sua música. Todo mês comprava 5. Após o quinto mês, descobri que os títulos estavam se esgotando, aí joguei o projeto pro alto e joguei a sistemática cronológica no lixo. Uns 60 cd’s e 2 vinis depois (entre eles, o Jazz From Hell lá do início do post, comprado na Baratos Afins novinho em folha) ainda não consegui terminar nem a discografia oficial do músico falecido em 1993, que dirá os milhares de bootlegs e piratarias (muitos deles piratarias oficiais já que Zappa pirateava seus próprios álbuns em represália às gravadoras que o escanteavam e ainda eram donas dos fonogramas). Falta muito para conhecer toda sua obra, mas continuo trabalhando para resolver essa falha de caráter. E quem não conhece, dispam-se de preconceitos e zappeiem-se!

os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo – parte 3 de 5

Posted in Genealogias de minhas paixões, listas, musique non stop, os 25 álbuns que mudaram o (meu) mundo with tags , , , , , , on 18/08/2010 by coelhoraposo

Depois de um longo hiato, a terceira parte lista! Depois diga o que acharam.

O Grande Show, ao vivo no Procópio Ferreira , 1979 – Baden Powell

Se João Gilberto criou a batida da Bossa Nova, Baden Powell é criou um estilo único de ataque ao violão: selvagem e tecnicamente impecável. Sem Baden Powell não teríamos tido Raphael Rabello nem Yamandu Costa, seus seguidores. Conheci Baden através de meu pai, que na década de 70 teve o prazer de conviver com o violonista nas rodas de samba que frequentadas por ambos no Recreio dos Bandeirantes. Cresci ouvindo falar dele até que um belo dia comprei esse vinil duplo que registra o show de retorno de Baden ao Brasil, depois de alguns anos morando na Europa.

Show fantástico produzido pelo jornalista Sérgio Cabral, registra Baden no auge de sua maturidade musical, interpretando standards da música brasileira, sendo muitos deles de sua autoria, seja com Vinícius de Moraes (“Samba da Bênção”, “Tempo Feliz”, “Berimbau” e “Canto de Ossanha”), seja com a magistral “Refém da Solidão”, composta com Paulo César Pinheiro, temas próprios como “Petit Valsa” e “Tributo a Juazeiro” , além de reinterpretações geniais como uma versão calcada no blues de “Asa Branca”, clássico indispensável de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira e uma versão frenética de “A Lenda do Abaeté”, de Dorival Caymmi.

A banda que acompanha Baden Powell merece destaque: o baixista Saulo Bezerra de Melo, Don Bira e Jorginho Cebion na percussão, além da sensacional bateirista Lilian Carmona. Um álbum que qualquer amante da música brasileira que se preze deveria, ao menos uma vez, escutar. Pena que nunca tenha sido relançado em CD. Parabéns aos sortudos qua o tenham em vinil.

Harvest, 1972 – Neil Young

Comprei esse álbum na loja Musical Center numa manhã de sábado, não tinha muito o que esperar dele. Para mim, Neil Young só era mais um nome daqueles que a gente sabe que precisa respeitar mas não sabe muito bem o porquê. Ao chegar em casa e escutar aos primeiros acordes de “Out Of The Weekend”, vi que tinha em mãos um tesouro: daqueles que não se pode vender, trocar, emprestar. Logo me tornei fã incondicional dele e de toda a sua obra. Ao som desse álbum, já chorei, já me alegrei, me pacificou… Desde então, I’ve been a miner for a heart of gold!

Histoire de Melody Nelson, 1971 – Serge Gainsbourg

Certa vez, conversando com Sérgio Moriconi – uma das minhas grandes influências, cinematográfica e musicalmente falando; ele me contou sobre a caixa com a obra integral de Gainsbourg. Não o conhecia, para mim era só o “cara que fez” Je t’aime, moi non plus: a música e o filme. Ao longo dos anos, dele ouvi uma coisa aqui, outra ali, até que me deparei com este álbum na internet, em alguma lista dos mais influentes álbuns da década de 1970: Histoire de Melody Nelson é qualquer coisa de fantástico. Os 30 e poucos minutos de duração passam num instante e você quer ouvi-lo novamente o tempo todo. Em um post passado, descrevi o sentimento de estupefação que me tomou ao escutá-lo pela primeira vez: cliquem no link acima e ouçam do que estou falando.

Jobim, 1970 – Victor Assis Brasil

No La Película Café, que minha mãe teve entre 1995 e 2005 no Cine Brasília, também funcionava uma pequena livraria que tinha um acervo pequeno, porém bem sortido de livros de arte, poesia, anarquismo etc. Durante um certo período, também tivemos CD’s à venda: uma loja, já extinta, deixara vários títulos em consignação para vendermos. Desnecessário dizer que a grande maioria deles foram adquiridos por mim mesmo. Entre eles estava este do fenomenal saxofonista Victor Assis Brasil, interpretando clássicos do Tom Jobim. Jazz da melhor qualidade. Uma pena que Assis Brasil tenha vivido tão pouco, seria uma unanimidade.

Little Creatures, 1986 – Talking Heads

A banda liderada por David Byrne é algo impossível de rotular: é new wave? É pós-punk? É world music? É art rock? Eu, particularmente não sou afeito a rótulos, gosto de música boa, este é minha maneira de classificar música. E Talking Heads não é bom: é genial! Deveria ter uns 14 anos e estava de férias no Rio de Janeiro com minha mãe, quando ela comprou alguns vinis vendidos por um ambulante da rua do Catete. Dentre eles, estava uma cópia já meio surrada deste Little Creatures, algumas canções já tinha escutado em algum momento.

Como no caso da escolha de Avalon, para representar Roxy Music nesta listagem, Little Creatures não é meu álbum preferido do Talking Heads, mas além de ter sido minha porta de entrada para seu universo musical, ele é uma sucessão de canções fantasticamente bem produzidas, com letras fantásticas e arranjos que resgatam as raízes do country, sem ser algo excessivo e sem perder algo que – também como a banda de Bryan Ferry – é fundamental para a consolidação de um grupo de música: a capacidade de não comprometer sua visão artística mesmo sendo altamente pop. A lista de músicas é uma sucessão de canções que te botam pra cima, deixando um sorriso no seu rosto. É o último grande álbum do Talking Heads antes do fim da banda no início da década de 1990, quando Byrne se lançou ao mundo como um verdadeiro arqueólogo musical, através de seu selo Luaka Bop. Mas isso é assunto para o 25º membro desta lista.

top 5 – cantoras brasileiras (update!)

Posted in listas, musique non stop with tags , , , , , , , , , on 13/08/2010 by coelhoraposo

já que este blog está numa fase de listas musicais, aqui vai a das cantoras brasileiras:

ATENÇÃO! Retirei Elis Regina da lista porque, mesmo sabendo que toda unanimidade é burra, toda regra tem sua exceção e no caso, Elis é unanimidade, é hors-concours!

  • Elizeth Cardoso – bem ela é A divina, né? Precisa dizer mais?;
  • Elza Soares – precisa explicar?
  • Gal Costa – pela capacidade de ser a porta-voz de toda uma geração e carregar o tropicalismo nas costas, na sensualidade e na voz;
  • Maria Bethânia – por ser a Maria Bethânia;
  • Nara Leão – porque além de ser uma fofíssima ela tinha um talento cerebral e um poder aglutinador fantásticos.

Mênção honrosa para Ná Ozzetti porque é a única cantora surgida nos últimos 30 anos que realmente tem curriculum, talento e merecimento para pleitear uma sexta vaga na lista acima.