a volta do inferno verde

A atualização do Código Florestal se fazia necessária por inúmeros motivos, entre eles o fato de ser uma lei antiquada que já nasceu torta há quase meio século e que não era aplicada como deveria ser. Nos últimos 50 anos muita coisa mudou, principalmente a relação da sociedade com a natureza e a lei que deveria reger esta relação teria que ser revista e atualizada. O principal ponto aqui é o da forma como a natureza precisa ser vista, não mais como “recursos naturais” e sim como um elemento integrante de nossas vidas. É sempre bom lembrar que o grande algoz do meio ambiente tem sido justamente aquele que deveria protegê-lo: o Estado. Desnecessário lembrar das relações quase sempre íntimas entre o Estado e o grande capital etc…

Com a abertura política, muito se avançou no debate da questão ambiental. Novos paradigmas se estabeleceram olhando para o passado e vendo os absurdos cometidos no Brasil: estradas projetadas utilizando-se somente de mapas e tecnocratas que nunca haviam saído de seus gabinetes foram abandonadas (algumas ainda em projeto e outras que a própria natureza tratou de engolir); hidrelétricas absurdamente constrúidas (como Balbina) e outras cujos projetos eram delírios ministeriais, pareciam ter sido engavetadas para nunca mais. A dicotomia entre ambientalistas e ruralistas permaneceu, mas o Estado brasileiro parecia ter amadurecido e apagado para todo o sempre o ideário do “inferno verde”, que é o de exergar a natureza como algo a ser derrotado, subjugado ou simplesmente extirpado.

Bem, parecia. A “derrota” sofrida pelo governo federal ontem com a aprovação do Novo Código Florestal na Câmara dos Deputados, expõe muito mais do que a gravíssima inabilidade do Palácio do Planalto em dialogar com o parlamento: estão expostos para quem quiser ver os reais interesses do plano do Brasil-potência, entre os quais o do desenvolvimentismo a qualquer custo (a hidrelétrica de Belo Monte é um exemplo claro disso), ideologia abraçada com unhas e dentes pelo Governo Dilma. No plano inconsciente (será?), o novo Código Florestal atende os desejos de amplos setores do governo que, embora não admitem, comungam com os setores mais retrógados da dita bancada ruralista.

Como este é um tema bastante polêmico e importantíssimo para o futuro não só do país, mas do planeta como um todo, toda e qualquer tentativa de transformar o debate em algo maniqueísta e demonizar os setores envolvidos é um desastre. Que fique claro: nem todo produtor rural é destruidor do meio ambiente, assim como nem todo ambientalista é o protetor escrupuloso que diz ser. Os interesse são muitos. Mas a não promoção de debates verdadeiros que envolvessem a sociedade brasilieira como um todo é culpa do governo, por um simples motivo: a falta de engajamento da sociedade era condição sine qua non para o resultado de ontem que, em última instância, agrada ao governo.

As comunidades indígenas foram alijadas do processo. A comunidade científica foi alijada do processo. O pequeno produtor foi alijado do processo. Enfim, a sociedade brasileira foi alijada do processo de discussão. Quando muito, foi iludida com os argumentos mais frágeis possíveis, como o do combate à fome (realmente, o grande produtor rural só  pensa em acabar com a fome quando desmata áreas de proteção, escraviza funcionários e por aí vai); ou ainda o da falta de energia elétrica e da necessidade de mega-empreendimentos hidrelétricos para poder evitar o temido APAGÃO, que leva a classe média a entrar em pânico (afinal poderia ter que deixar de assistir a novela das oito em suas giga telas de LED) enquanto os reais beneficiários de toda essa energia elétrica (de fontes renováveis, ressalta o governo) são os consumidores industriais, que agradecem.

Agora resta à Presidenta Dilma vetar o novo Código afinal, às vésperas da Rio+20, ela precisa dar o recado certo para os representantes de mais de uma centena de governos mundo afora. O problema é que o veto só irá postergar a questão. Até porque propostas de fato, o governo não têm. Ou melhor, até têm. Mas como se parecem tanto com o que foi aprovado ontem, é melhor nem apresentá-las.

Agora é esperar o veto da presidenta, que virá. Dificilmente será um veto integral, até porque os ruralistas poderiam derrubar o veto presidencial. Resta saber qual será o tamanho do bicho de 7 cabeças que o Novo Código Florestal se transformará. Mas uma única certeza já podemos ter, a máscara caiu e este governo mostrou – até em sua incompetência – de que lado está.

O ideário do inferno verde voltou. Mais forte do que nunca.

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