para não dizer que não falei das flores

Em tempos de BBB e suspeitas de estupro (eufemisticamente, “sexo sem consentimento”), o texto publicado na Revista Piauí em dezembro de 2009, intitulado “O Sono de Polanski”, da escritora e ensaísta britânica Jenny Diski (publicado originalmente na prestigiosa London Review of Books, em novembro do mesmo ano – aqui a versão original, intitulada Rape-Rape), trata do imbróglio envolvendo o rumoroso caso de estupro de menor, no qual o cineasta polonês Roman Polanski foi condenado nas cortes norte-americanas e que causou sua auto-deportação para a Europa. Quando tal texto foi escrito, Polanski acabara de ser preso no Suiça e sofria a ameaça de ser enviado aos EUA para cumprir sua pena (ao que parece, estupro é um crime que não prescreve por lá).

Ao lê-lo (e cabem aqui os agradecimentos a amiga Juliana pelo compartilhamento via facebook), logo pensei (e comentei) o quão dolorasamente fantástico era o texto. Primeiro por deixar claro que o tema é simples: forçar alguém a fazer sexo, mesmo que no fim das contas a pessoa diga sim – por cansaço ou por uso de drogas, se chama  ESTUPRO. Simples assim e em letras garrafais para não pairar dúvidas. Em segundo lugar, porque a autora exemplifica com a própria carne, relatando o estupro sofrido quando tinha 14 anos.

No caso do Polanski em si, eu realmente nunca tive uma opinião formada sobre, provavelmente por nunca ter sabido dos detalhes. Pra mim era só o caso de “uma garota que estava numa farra na casa de estrelas de hollywood e que no fim deu merda”. Obviamente não foi nada disso. Apesar de adorar os filmes dele, costumo sempre ter um pé atrás com quem vive a vida usando seus traumas para a todo o tempo dizer: “foi mal, sou uma vítima da sociedade!” É realmente triste sua história – família chacinada na segunda guerra em campos de concentração, a esposa e o filho prestes a nascer imolados pelo bando de homicidas comandados pelo lunático Charles Manson; e ela talvez seja uma das principais razões para seu cinema ser tão interessante. Mas seu histórico ser usado como justificativa para amenizar o estupro de uma garota de 13 anos (e ela poderia ter qualquer idade que, ainda assim, seria algo desprezível e deplorável).

O que me deixa triste é ver o nome de alguns dos que subscreveram a tal petição de soltura (as Isabelles Adjani e Huppert  por exemplo).

O que me deixa pasmo é a defesa de Polanski nos tribunais tê-lo defendido usando o argumento do quão incrível era a Los Angeles dos anos 70, com tanta liberdade sexual e tantas mentes criativas (seria reflexo da quantidade descomunal de cocaína que era consumida como água por tais mentes?)

O que me deixa com a pulga atrás da orelha é que o anfitrião dessas “festinhas” corriqueiras ao longo das últimas 4 décadas, Mr. Jack Nicholson, nunca é mencionado. Pacto de silêncio talvez?

Quanto ao rumoroso caso da suspeição de estupro no programa mais ignóbil – e aparentemente mais lucrativo – da televisão brasileira, vão colocar panos quentes, se é que já não colocaram. Mas o simples fato de estar sendo falado, já é um ponto positivo em si, afinal tenho certeza que muitas pessoas já se viram em situações similares a essa e talvez agora percebam que aquela ausência de memória sobre alguma noite qualquer, tenha obscurecido algo torpe e imperdoável.

6 Respostas to “para não dizer que não falei das flores”

  1. esse post foi tão bom quanto pintar com Lukscolor. Lukscolor, a tinta da pintura inteligente!

  2. inashorttime Says:

    também nunca entendi a razão desse silêncio em relação ao jack nicholson, que tem a maior cara de safado pirangueiro.

    estou por fora: que história de estupro foi essa?

    eu tô lendo a trilogia do stieg larsson [ muito boa! ] que envolve estupro a doidado. dá nojo.

    beijos,
    lisa

    • Lisa,

      pelo que entendi (só soube hoje), uma festinha no big brother terminou com sexo.

      tem quem diga que a menina bebeu demais e o cara se aproveitou pra comê-la, tem quem diga que foi consensual.

    • pois é, a tal trilogia millennium. Ia assistir ao filme sueco no sábado, mas a exibição era em dvd, aí desisti. quero muito vê-lo, parece que é bem pesado mesmo.
      quanto a história do bbb é isso que o palandi falou, existe o tal vídeo (http://youtu.be/-3AV1sIEAGk), que causou todo esse alvoroço, mas sei lá. o importante é que se discuta isso de maneira aberta.
      agora o que é assustador é a reação de neguinho: por exemplo, tem gente dizendo por aí que “se aproveitar da mina que apagou de tão alcoolizada que estava, quem nunca? Bem se você é um gentleman como eu é claro que nunca fez isso, mas isso não que dizer que isso não aconteça com muita frequência. O problema é quando o cara esquece que está em rede nacional”.

      Fucked up world

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