realpolitik

Quando recebi o e-mail da minha amiga Elisa que continha a carta de desfiliação de André Passos (ex-funcionário da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do DF, sob administração do seu partido, o Partido Verde), senti um misto de “eu já sabia” com frustração. O “eu já sabia” se refere, obviamente, ao fato de que nunca acreditei que o atual governo do Distrito Federal, capitaneado por Agnelo Queiroz e Tadeu Filipelli, seria diferente dos governos anteriores – principalmente no que se refere a desorganização, malfeitos (sim, corrupção agora foi batizada de “malfeitos” pela presidenta Dilma) e a obsessão partidária pelo aparelhamento total de todas as instâncias governamentais.

Mas também me senti frustrado, principalmente porque em algum nível compartilho dessa frustração. Não há nada mais frustrante do que se entregar de corpo e alma a algum projeto e, logo depois, ver que no fundo você é um otário. Pelo menos é assim que muitos nos verão. O discurso do “sistema” é sempre o mesmo: “você tirou a sorte grande. Nosso candidato se elegeu e teremos 4 anos de moleza pela frente!” Infelizmente, é exatamente isto o que ocorre. Obviamente que existem pessoas que conseguem “fazer as coisas acontecerem” mesmo enfrentando as dificuldades partidárias, da máquina estatal etc etc. Mas a questão é que para que isso ocorra, elas acabam tendo que fazer concessões, se comprometendo em algum nível. O Brasil realmente não é para amadores. E política, definitivamente, é para profissionais…

Ainda bem que existem pessoas que não conseguem fazer tais concessões. Por isso que aplaudo a atitude de André Passos (vulgo Esqueleto).

Segue a carta:

Carta de Desfiliação do Partido Verde

Prezados leitores e eleitores,
É com certo pesar e ao mesmo tempo sentimento de dever cumprido, que venho comunicar minha desfiliação do Partido Verde, como também minha saída do Governo do Distrito Federal.
Infelizmente, não encontrei apoio no partido para desenvolver tudo que foi planejado durante o período de campanha eleitoral.
Sou nascido e criado em Brasília e para mim é impossível desvincular-me do propósito de trabalhar pela melhoria de nossa cidade.
Quando Agnelo Queiroz assumiu o Governo do Distrito Federal, o PV, assumiu a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos e muitos de seus filiados, como eu, recebemos a oportunidade e a digna e honrosa missão de trabalhar junto ao Governo.
Ocorre que, passado quase um ano, muitos de nós, embora recebendo salário, não vinhamos recebendo trabalho. Exige-se o cumprimento do horário, mas falta organização, planejamento e estratégia para aproveitar a força de trabalho disponível dentro do Partido.
Ganhar o dinheiro do contribuinte para não fazer nada, quando há tanto a se fazer, para mim é inconcebível.
Desfilio-me do partido, abro mão do meu cargo para continuar buscando uma forma digna e honesta de trabalhar por Brasília.
Todos os desejos e esperanças construídos durante a última campanha eleitoral foram frustrados.
Aquela união passada pelo Partido Verde naquela época evaporou e só sobrou a constatação de que, de fato, existe uma cúpula que não quer deixar o poder e nem seus cargos.
Entra governo, sai governo e a cúpula continua lá. Distribuem-se cargos e salários, mas não se oferece o principal: oportunidade de efetivamente trabalharmos pelo Distrito Federal.
Para mim isso não é honesto. Por isso, após buscar, de todas as formas, mas sem êxito, um lugar onde me fosse dado trabalhar pelo Distrito Federal, cheguei a conclusão de que não dá mais.
Eu mantenho meu compromisso com todos aqueles que depositaram sua confiança em mim e me deram seu voto.
Eu quero trabalhar por Brasília e não vou ficar acomodado.
Apresentei projetos e idéias para serem desenvolvidas junto à sociedade, mas não obtive retorno.
Realmente, como ficou constatado por Marina Silva e os que há um tempo atrás deixaram o PV “A direção do partido, em sua maioria, disse não à democratização de suas estruturas institucionais, ao diálogo com a sociedade e a um projeto autônomo de construção partidária.”
Concordo que as propostas de campanha não poderiam ter ficado enclausuradas em estruturas arcaicas de poder.
Assim, junto-me à Marina Silva e comunico à direção nacional do PV minha desfiliação em busca uma Brasilia justa e sustentável.
Não escrevo com alegria, pois vejo que as bandeiras pelas quais lutei e me fizeram entrar no PV não são mais respeitadas pelo próprio Partido.
Além disso, o discurso de renovação e de atuação eficaz, deu lugar à prática política que sempre abominei: segregadora e personalista.
Não posso compactuar com um Partido que emprega seus filiados e não lhes dá trabalho nem oportunidade de desenvolverem suas idéias.
Aqueles que desejaram minha derrocada podem se regozijar, mas saio do PV sem ser dominado.
Saio para um chamado maior, para honrar meus princípios, meus amigos e todos que me apoiaram, me apoiam e que dividiram comigo o sonho de 2010, confiando seu voto em mim e nas idéias que represento.
Não chegaria a este ponto extremo de abrir mão de meu cargo e desfiliar-me se eu não considerasse a situação insustentável.
Sei que a vida segue por caminhos planejados, que embora pareçam trilhas desconhecidas e misteriosas, sempre levam a um porto seguro.
E, como diria Steve Jobs, lá na frente verei onde os pontos irão se encontrar.
Mas como somos nós os responsáveis por nossas escolhas e são elas que definem quem somos e em quem nos tornamos, sei que nesse momento essa é a atitutude correta.
Saio do PV depois de quase 3 anos. Neste período conheci grandes pessoas com os quais tenho a certeza de que ainda terei o prazer de ombrear em muitas lutas futuras. Tive o prazer de dividir legenda com um grande ícone e exemplo em minha formação política, que foi Marina Silva. Cada conversa foi um grande aprendizado, e cada momento de convivência uma honra. Ademais, continuará a ser uma líder a ser seguida e a fazer a diferença em nosso País.
Agradeço o apoio e a receptividade que sempre encontrei no colega Nilton Reis, um verdadeiro trabalhador do Partido em Brasília e em outros que não preciso dizer os nomes, pois sabem que estiveram ao meu lado. São pessoas que poderiam estar dando boas contribuições para o Distrito Federal, mas cujo potencial está sendo desperdiçado. A estes agradeço pelos conselhos e momentos em que estivemos juntos pensando numa forma de se fazer boa Política. Continuaremos unidos em busca da mesma causa.
Quem me conhece sabe que sou autêntico e não aceito ficar de mãos atadas, olhos vendados e boca calada diante daquilo que acho injusto.
Não posso deixar de agradecer a oportunidade que o Partido Verde me deu de concorrer às eleições de 2010, mas agora entendo porque o Partido recebe tantas críticas e é chamado de verde porque nunca vai amadurecer.
Perdeu a grande oportunidade de alavancar no cenário nacional ao abrir mão de Marina Silva.
O que pude perceber é o Partido prefere a estagnação, pois seus dirigentes não aceitam largar o osso dos cargos comissionados que recebem em troca de alianças espúrias. Dessa forma, afastam o partido de seus princípios e ideais políticos e sociais.
Por isso termino aqui minha história com o PV na certeza que encontrarei em outro partido a oportunidade de trabalhar por Brasília, esperando ser recebido como uma pessoa que quer somar ao processo político, lutando e trabalhando de forma limpa, eficaz, transparente, democrática e livre para o bem de todo o Distrito Federal.
Eu não poderia permanecer em um Partido que não me proporcionava condições de me manter fiel aos meus princípios e aos princípios do próprio PV, nem aceitar modelos de ação nos quais eu não acredito e que não propiciam a mudança coletiva para melhor.
De repente me vi em um conflito de pensamentos entre forças existentes no partido e minhas convicções.
Por várias vezes solicitei trabalho, pois não aceitava cumprir o horário de expediente sem ter absolutamente nada para fazer, e isso não era só comigo, era e continua sendo com a maioria. Maioria essa que aceita tal condição com medo de ficar sem seu salário ao final do mês.
Imagino que o mesmo esteja acontecendo em outras Secretarias e talvez por isso o Distrito Federal esteja como está.
Pura falta de planejamento estratégico, falta de pessoas que saibam administrar e delegar serviço.
Vemos nos noticiários a Saúde em estado deplorável e penso na quantidade servidores do Governo do Distrito Federal que poderiam estar ajudando, atendendo pessoas, e que, infelizmente, estão subaproveitadas.
Daí, surgem os fiascos. Como o que presenciei ontem ao levar minha família para assistir à final do Campeonato Mundial de Patinação, no Ginásio Nilson Nelson: patinadores de alto nível caindo em razão de GOTEIRAS em plena pista de patinação, funcionários tendo que ir secar a pista com panos de chão no intervalo de cada apresentação. Fato vergonhoso e injustificável, principalmente, se consideramos que bem ao lado existem sabe-se lá quantas pessoas trabalhando na construção da menina dos olhos do Governador Agnelo: o Estádio Nacional de Brasília.
Por essas e outras, pelos compromissos que firmei com amigos e eleitores e pela vontade de lutar na política, apesar das adversidades constantes que são parte dela, é que tomo esta decisão em busca de coerência e ética.
Saio com a consciência tranqüila, certo de que esta é a hora de seguir para novos ares para não enterrar meus valores e poder continuar lutando pelo sonho da transformação social honesta, limpa, sustentável e digna.
Quero continuar minha luta por um Distrito Federal que sonhamos e merecemos.
Obrigado a todos que apoiarem nesta decisão, tomada porque acredito que é possível fazer política sem se vender.
Quando resolvi entrar na Política e me candidatar, o fiz por acho que a esperança do Distrito Federal está em termos representantes nascidos e criados aqui, que como eu tenham verdadeiro amor por sua terra, compromisso com seus eleitores.
Brasília é uma cidade jovem, que sempre foi governada e representada por pessoas de fora, acredito muito que na hora em que os Brasilienses começarem a assumir cadeiras políticas as coisas vão melhorar.
Coloco-me de braços abertos e ouvidos atentos para receber e ouvir a cada uma e a cada um que queira conversar sobre os pormenores de toda essa história.
Que venham Novos tempos! Conto com vocês nesta caminhada.
André Luz Cesar Passos (André Esqueleto)

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