futebol, brasil e wisnik

WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 446 pág.

Já falei aqui de minha paixão por José Miguel Wisnik em outras oportunidades (aqui e aqui). Não conheço sua produção acadêmica e, como não sou um acadêmico (muito menos um acadêmico das letras), não posso falar se ele é um bom professor, pesquisador e etc e tal (talvez minha amiga Raquel possa me ajudar nisso). Mas como compositor, letrista e pensador acho que seu curriculum dispensa comentários.

Há anos tento terminar a leitura de O Som e o Sentido, sem sucesso. Mesmo não sendo um livro hermético sobre a história da música, tenho ainda algumas dificuldades técnicas em compreender certos conceitos. Mas vai que um dia aprendo. Mas em Veneno Remédio – O futebol e o Brasil, Wisnik lança mão de toda sua bagagem cultural, acadêmica e, por que não, pessoal para fazer uma análise culturalista bem interessante sobre a importância do futebol na formação de nossa(s) identidade(s) nacionais. Seu ponto de partida são os escritos de Pier Paolo Pasolini (sim, o próprio) sobre esportes e, mais especificamente, sobre o futebol – inclusive sobre o futebol brasileiro.

Em tempos de Copa do Mundo, leis que ferem abertamente a soberania nacional e os obscenos e imperdoáveis gastos faraônicos (superfaturados e altamente desviáveis) para receber o evento da FIFA no Brasil, nada melhor do que uma leitura abrangente sobre o esporte que une o Brasil, gostando ou não.

Enfim, Veneno Remédio é um livro pra quem gosta de futebol para além das quatro linhas. Mas, mais do que isso, é um livro para quem quer entender o que faz do Brasil, o Brasil.

Segue abaixo trecho introdutório do livro:

No Brasil, a incapacidade de combinar a paixão e a crítica tornou- se um traço recorrente, dominando em boa parte a cena pública invadida a todo momento pelo futebol: é como se fôssemos obrigados a estar muito colados ao fenômeno ou muito fora dele, como se só pudéssemos ser ou frívolos ou graves, para usar aqui a famosa definição de Brás Cubas para as “duas colunas máximas da opinião”. Um futebolismo avassalador,multiplicado pela mídia e euforizado ainda mais pela propaganda,tem como contraponto quase obrigatório as vozes altivas que se põem no que parece ser a posição pensante e que timbram por minimizar o futebol em si, destituindo-o de qualquer relevância cultural. No momento que agora se abre, com a perspectiva da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, a conhecida combinação brasileira de sucesso futebolístico com desmando político acaba por chapar o processo, fazendo dele inteiro uma só medalha, com uma face eufórica e outra disfórica a se revezarem infinitamente (papel exercido pelo duplo viés de exaltação e bombardeio acusatório com que a imprensa trata comumente o assunto). Aqui, a tentativa é fazer contato com a experiência total do futebol na vida brasileira sem cair na gangorra onipresente que balança entre o veneno da crítica ou a droga euforizante – pólos que se equivalem, quando falsamente contrapostos, em nivelar e esconder a questão.

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