Os 25 álbuns que mudaram (o meu) mundo – hors-concours

“O ab(surdo) não h(ouve).”

Walter Franco

Se na primeira parte dessa lista expliquei que seria covardia incluir um álbum específico de Caetano Veloso, Beatles ou Chico Buarque pelo simples fato de que nenhum especificamente foi algum turning point pra mim, alguém que tenha me seguido ao longo desses últimos 14 meses e me conhece minimamente, sabe que contemplei boa parte de meus heróis. Porém uma ausência salta aos olhos. E essa ausência se explica pelo fato de que NENHUM disco, álbum ou qualquer coisa que o valha mexeu comigo, me ampliou horizontes sonoros, derrubou muros e mudou minha maneira de sentir música como o volume número dois da Série Dois Momentos, dirigida pelo ex-Titãs e pesquisador musical, Charles Gavin: os dois primeiros álbuns do obscuro e G-E-N-I-A-L, Walter Franco.

Após o estrondoso sucesso de vendas do primeiro volume da série, que trazia os dois primeiros álbuns do Secos & Molhados, Gavin se empenhou em relançar em CD os quase esquecidos álbuns fundamentais em qualquer discografia de música brasileira: Ou Não (1973) e Revolver (1975). Por questões que não compreendo, a ordem cronológica dos dois álbuns foi invertida na edição do CD, assim o ouvinte escuta primeiro o álbum de 1975 para só após a décima-quarta faixa começar a escutar o álbum de 1973. Uma explicação talvez seja o fato de Revolver ser um álbum (aparentemente) menos radical em sua concepção que a estreia em 1973. (Mas convenhamos, Gavin errou feio ao inverter a ordem, afinal quem compra um disco de Walter Franco espera tudo, menos conforto). Mas enfim, como diz na matemática, a ordem dos fatores não altera o produto e, neste caso, pouco importa se as faixas estão embaralhadas como é a leitura de “Jogo da Amarelinha”, do Cortázar. Mas, para satisfazer o meu TOC, voltemos ao ano de 1972.

Walter Franco, aos 26 anos com uma carreira já consolidada de compositor de trilhas para o teatro e a televisão, trabalhava na divisão de música incidental da TV Tupi quando procurou o diretor Fernando Faro (figura fundamental da música popular brasileira e pouco lembrado nos dias de hoje) para apresentar uma canção de sua autoria, “No Pátio dos Loucos”. A canção, que seria tema de abertura da novela “O Hospital” (ouça aqui a versão original), foi o primeiro compacto simples de Walter Franco, ainda em 1971.

Após apresentar algumas de suas composições em festivais, como o Festival Universitário da Canção Popular da TV Tupi, Walter Franco “ousou” inscrever “Cabeça” no VII Festival Internacional da Canção, realizado pela Rede Globo. Aquele momento representou um ponto de mudança em sua carreira e chocou a todos pelo radicalismo artístico que propunha: rompimento total com os cânones da canção popular. O vanguardismo de Franco foi logo captado pelo júri que quis premiá-lo. Já insatisfeita com declarações políticas da presidente do júri (Nara Leão) e com a ousadia de outros participantes do Festival (como Hermeto Pascoal, que tinha entre os componentes de sua banda, porcos), a direção do festival destituiu o júri composto por Roberto Freire, Décio Pignatari, Rogério Duprat, Sérgio Cabral, entre outros. (A título de curiosidade, a canção premiada foi Fio Maravilha, de Jorge Ben e entre as concorrentes estava “Eu quero botar meu bloco na rua”, do também maldito e genial Sérgio Sampaio). Com o fim do Festival e após toda essa confusão, Walter Franco estava pronto para “cometer” o maior crime que um artista brasileiro pode cometer: ser genial. (Os exemplos são inúmeros, mas a forma como Tom Jobim, Tom Zé, Jards Macalé, Júlio Barroso, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Glauber Rocha, Mário Peixoto e outros tantos foram – alguns ainda são – tratados pela crítica/público mostra que temos uma dificuldade enorme em prestigiar os nossos melhores exemplos)

* * *

Os álbuns

“Misturação” é a faixa que apresenta a proposta musical de Walter Franco, resumindo tudo num verso simples e direto: “eu quero que esse teto caia/Eu quero que esse afeto saia já!”. A primeira faixa de Ou Não, mostra em sua letra e na maneira como ela é cantada que Franco se diferenciava do que era produzido no Brasil de 1973. “Água e sal” seguida de trecho acelerado – com direito a distorções aparentemente grosseiras (e não o disco não está arranhado) –  de “Doido de fazer dó”, serve para apresentar a versão radical do tema da novela  “O Hospital” apresentada no ano anterior, “No fundo do poço” sobrepõe vozes de modo a construir o ambiente do tema da canção: o infinitude do desespero. “No pátio dos loucos” e “Flexa” seguem, cada uma à sua maneira a linha explicativa da loucura e da complexidade humana e suas infindáveis camadas. “Me deixe mudo”, talvez seja a canção mais impactante do álbum, talvez pela forma em que ela é apresentada: ela é cantada inicialmente de maneira tímida até explodir – vocal e instrumentalmente – com a letra completa, e em seguida sumir timidamente com iniciara (“Me deixe mudo” foi regravada por Chico Buarque no célebre álbum de versões, “Sinal Fechado”, de 1974 – ouça aqui). O experimento de xaxado, “Xaxados e perdidos”, “Doido de fazer dó” e “Vão da boca”, são as faixas que se seguem, que servem para preparar o espírito do ouvinte para a “canção” apresentada no VII Festival Internacional da Canção: “Cabeça” é apresentada da maneira como ela fora composta, uma colagem sonora simplesmente revolucionária, que sintetiza todo o resto do álbum. (“Por um triz”, canção lindíssima que fala do nascimento e da continuidade de vida e que fecha o álbum, na realidade não foi gravada para Ou Não: é um single incluído aqui por Charles Gavin, provavelmente por nunca ter sido lançado).

Dois anos depois, Walter Franco deu continuidade a seu trabalho vanguardista com Revolver. Este segundo álbum é aberto com a visceral “Feito Gente”, uma canção rock’n’roll bem aos moldes da época, com riffs rasgados e uma letra que Walter Franco canta com uma voz rascante toda a dor de um término de relacionamento. Algo a ser mencionado é  que “Feito Gente” foi logo captada pela musa da jovem guarda, a ternurinha Wanderlea,  que tomou para si a canção e fez uma ótima versão para seu álbum de 1975, também batizado de Feito GenteO ouvinte desatento é logo capturado pelo hard rock de “Feito Gente”, mas logo é jogado em mais um turbilhão de canções que mais se parecem como mantras concretistas: “Eternamente”, por exemplo, é uma canção construída toda a partir do rearranjo das sílabas da palavra eternamente:

Eternamente
É ter na mente
Terna mente
Eterna mente

“Mamãe d’água”, segue a mesma linha só que com um frase que cresce a cada vez em que o verso é cantado: à maneira de “Batmacumba”, a canção de Walter Franco inclui novas palavras, gerando expectativa sobre o que ele quer dizer: é uma declaração de amor? É uma pedido de separação? Ou é só uma saudação noturna?

Iara eu te amo
Iara eu te amo muito
Iara eu te amo muito mais
Iara eu te amo muito mais agora
Iara eu te amo muito mas agora é tarde
Iara eu te amo muito mas agora é tarde eu vou
Iara eu te amo muito mas agora é tarde eu vou dormir

O álbum segue com a divertida e dançante “Partir do Alto/Animal Sentimental”, depois a simples e singela “Um pensamento” introduz a experiência mântrica com “Toque Frágil”, seguida de uma canção e, inglês que, mais uma vez, trata do vazio e da busca da paz interior, “Nothing” (“I am not happy now / I am not sad / I am just nothing now /  looking to the empty space…”). Em “Arte e Manha”, Walter Franco volta a quebrar a letra da canção em sílabas que servem como linha rítmica e melódica ao mesmo tempo.

“Cachorro Babucho”, regravada dois anos depois por Jards Macalé em Contrastes, outro dos álbuns que mudaram o (meu) mundo, é uma engenhosa e elaborada canção de ninar, enquanto que em “Bumbo do Mundo” Franco utiliza percussão gingada e sobreposição de sua voz (recurso largamente utilizado em ambos os álbuns, que serve para dar profundidade às canções). “Pirâmides”, cria uma sensação bem clara de um onda batendo na praia: movimento contínuo, ritmado e pacificador, abrindo caminho para uma das canções mais lindas já escritas por Walter Franco, “Cena Maravilhosa”: musicalmente, a canção é um desbunde sonoro que faz o ouvinte quase voar ao ouvi-la. O álbum fecha com a canção que dá título ao álbum, “Revolver”, mais um dos mantras engenhosos e gostosos de ouvir criados pelo quase monge zen paulistano que ousou ser genial num mundo tomado pelo comodismo e pela falta de originalidade e de paixão… Vida longa às suas obras!

Lembrar de esquecer
Esquecer de lembrar
Cansar de dormir
Dormir descansar
Sorrir de doer
Doer de sangrar
Sangrar de morrer
Morrer de lembrar


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