carta aberta de natal

Ao som de Nick Cave e Walter Franco

Uma máxima que aprendi com você – no discurso e na vida – é a de que a alegria é contagiante enquanto a dor é contagiosa. Verdade universal esta, experienciada na carne e na alma dia-a-dia, principalmente por aqueles seres mais sensíveis, com antenas mais bem sintonizadas com as questões do espírito do que do corpo. Sempre fiz a escolha – consciente ou não – de estar ao seu lado, principalmente nos momentos onde a dor irradiava a partir do seu coração.

Sempre tivemos nossas diferenças, algo normal – esperado até – em se tratando de filho único de pais separados etc e tal. Obviamente que isso foi se acentuando ao longo dos anos quando, também de maneira esperada, a necessidade de independência e auto-controle se tornou parte central de minha vida. Nunca fui santo, posso ter sido inconscientemente desonesto quanto ao que eu queria de mim, de você, do mundo… Não cabe aqui ficar fazendo listinhas cretinas, procurar traumas psicanalíticos possivelmente inexistentes. O que interessa aqui é a verdade, afinal é ela quem nos libertará, correto?

Hoje é véspera de Natal, uma data tão importante para você, que só torna isso tudo mais difícil. Difícil porque é a data em que os sentimentos – os verdadeiros e os artificiais – estão à flor da pele de todos, afinal é a data em que a conexão com Deus está mais límpida e evidente: é o momento em que a comunhão dos valores cristãos, a religação com o divino,  esse “religare” está mais latente… E não há nada mais supremo e divino do que o dom da vida, dar vida aos outros e transmitir aos outros um pedaço da sua carne e da sua alma. Não sou pai, sou somente filho, portanto somente o portador de um pedaço de sua carne e de sua alma. Quem saiba um dia eu possa dar continuidade a essa religação, esse reencontro permanente com Deus.

Mas sinto, no fundo da minha alma, que hoje preciso dar um passo para trás: em vez de religar, preciso desligar. Não é possível viver mais com esse sentimento permanente de tentativa-e-erro. Simplesmente é duro demais pra mim ver alguém se apegar ao sofrimento como modo de subsistência. Sei que tenho milhões de defeitos, piso na bola, não sou o filho que sonhaste, não sou mais o filho companheiro que tiveste.  Sei também que causei dores em você, feri (na grande maioria das vezes como um animal acuado), que negligenciei e negligencio o seu afeto…

Sonho com o dia em que possa ser somente seu… filho. Eu não tenho fibra moral, talvez, para ser o seu guardião, seu protetor, seu defensor, seu pai. Nem companheiro, nem irmão. E, por favor, não pense que a falha é sua. Você é uma mulher forte, de fibra, guerreira, que criou um filho sozinha, com um pai afetivamente ausente e que, quando quer, sabe fazer acontecer. A parte fraca aqui sou eu. Mas mesmo fraco, não admito que a mim seja imputada uma carga de culpa que eu não reconheço como minha.

E é negando carregar essa culpa e essa responsabilidade que peço que entendas que, se agora estou em um avião em plena véspera de Natal, não estou fugindo, estou indo em busca da minha vida, das minhas escolhas e de onde eu me sinta acarinhado sem que isso seja jogado na minha cara a todo o momento. Quero leveza na minha vida, quero simplicidade no meu olhar. Eu muito te admiro, mas não quero ser você. Sofro muito por dentro mas preciso, por ora, me desligar de você, para corrijir nossos erros e defeitos de modo a podermos conviver como uma mãe e um filho que se amam muito, mas que consigam entender um ao outro de maneira saudável.

Minha alma chora, mas eu te amei como pude…

Passe bem o Natal.

Beijos,

 

seu filho

Uma resposta to “carta aberta de natal”

  1. Astrid Lima Says:

    Querido,
    nós mulheres nos quebramos pela vida e convivemos com dores que nao tens idéia da intensidade. Muitas vezes saem pelos dedos, pelo sorriso, pela pele e é quase impossivel controlar isso tudo. Sao dores que nos comem.
    Porém um dia voce sentirá falta dessa mulher e nada no mundo poderá consolar, consertar, anular aquela ausencia.
    Lembre-se disso e seja menos duro com ela.
    Um beijo.
    A.

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