da série “cartas não enviadas” – II

Ao som de Cat Stevens

Cara Xxxxxxxxx,

Sou alguém que não consegue viver sem amores impossíveis. Me alimento da fantasia, de um tipo ideal de amor que não existe. Masoquismo, pode ser. Mas é este tipo de paixão delirante que me move. Sou um romântico, com tudo o que de negativo isso possa trazer. Não sei quanto a você mas acredito no encantamento. E acreditar no encantamento hoje em dia me coloca numa posição de inferioridade perante um mundo tão desencantado e cínico.

Quando a reencontrei depois de tanto tempo, fui nutrindo um desejo intenso de ter você ao meu lado. Sempre. O medo, a ansiedade, a espera, os desencontros, os encontros sempre atropelados pelas circunstâncias do momento, a dúvida… Todas essas coisas ao invés de me afastarem de você, me aproximaram ainda mais desse incipiente sentimento confuso que aos poucos tomou conta de mim. Passei a criar um mundo em que você fazia parte, comigo. E a certeza da incerteza sobre o que poderias sentir por mim me angustia, me mata.

Todos os encontros planejados por mim viraram poeira e essa poeira poluiu meu coração de tal maneira que não sei mais o que sinto: é amor? Mas o que é o amor senão um sentimento construído socialmente ao longo dos séculos? Ao menos o amor romântico que tanto foi cantado em prosa e verso por Goethes, Baudelaires, Rilkes, Florbelas, Pessôas… Não sou poeta, não tenho capacidade para tal, mas os invejo. Os invejo porque eles conseguem colocar no papel tudo aquilo que algum dia gostaria de falar para você. Sabendo de tudo isso, seria temerário dizer “eu te amo”? Muito provavelmente sim, no mínimo infantil. Mas essa infantilidade me é muito reconfortante.

Assim como foi reconfortante mandar flores para você. Me fez muito bem, me senti agente dentro da minha vida, tomar atitudes. É claro que o momento não foi o melhor (tenho um péssimo timing), mas o carinho que quis transmitir foi, antes de mais nada, um carinho genuíno de alguém que realmente gosta de você, mesmo sem saber bem o porquê. Mesmo sem saber como o receberia. A alegria é contagiante e a dor, contagiosa, infelizmente é assim esse mundo: quero deixar claro que, independentemente de qualquer coisa, tentei me mostrar solidário.

Como falei no início, me alimento de fantasias. E com você – ou com a ideia que faço de você – sonho acordado, passo as horas esperando por você, mas você não vem. Sou um apaixonado por pequenos prazeres e quero compartilhá-los contigo. Se tivesse algo que eu pudesse dizer que foi o que me encantou em você foi sua dignidade, olho para você e vejo uma mulher forte, sensível, atrelada aos seus sonhos de maneira cativante. Objetiva, mas sensível. Aparência frágil, mas forte como um búfalo por dentro. Queria agora tocar seu rosto, acariciar seus curtos cabelos, beijar seus lábios e perguntar: posso fazer parte da sua vida?

Mas ao mesmo tempo em que penso e digo que estou completamente apaixonado, uma parte dentro de mim diz outra coisa: a razão diz que tudo isso não passa de um delírio de um eterno garoto à espera de algo que não existe. Todo relacionamento é uma via de mão dupla e quando comecei a sentir que essa via só tem um sentido – de mim para você e nunca o contrário – resolvi me afastar, porque esta é única maneira possível que consigo encontrar para não sofrer por este delírio que, com o tempo, percebo que realmente não passa de um delirio porque sinto que não tenho espaço em sua vida. Ao menos não como eu gostaria que tivesse.

Talvez você leia isto algum dia, talvez não. Mas não me importo mais. Se algum dia nossos caminhos se cruzarem novamente – e secretamente torcerei para isso – o destino nos dirá o que fazer. Dito isto, dito está, “that’s just another case of common uncommunicability, and life goes on in such a lonely way…” *

Uma catarata de beijos,

Thiago

* trecho de “Common Uncommunicability”, de Maurício Pereira. Faixa 13 do álbum “Música Serve Pra Isso”, de Os Mulheres Negras. Ouça aqui.

3 Respostas to “da série “cartas não enviadas” – II”

  1. […] para casa retomar à rotina do dia-a-dia. Comigo caiu o pano, caiu a ficha. Tudo aquilo que disse na famigerada carta não enviada continua verdadeiro (tenho o péssimo hábito de não desdizer o que disse um dia), mas parte do […]

  2. Gloria Says:

    Caracaaaaaaaaa…achei voce um pouco parecido comigo em suas palavras.
    Gostei do texto.

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