Do Amor, 2010 – Do Amor

Se juiz de direito fosse, teria que me julgar suspeito para avaliar o tão esperado álbum de estreia da banda carioca Do Amor (http://www.myspace.com/doamor), “vazado” na internet em julho e que, deve chegar às lojas ainda no mês de agosto. Sou suspeito para falar da banda, primeiro porque sou fã, segundo por conhecê-los e tê-los como amigos há tempos. Como não sou crítico musical, não vivo disso e nem me acho senhor da razão, quis escrever algumas linhas e não me sinto nem um pouco constrangido com isso.

Antes de mais nada, Do Amor é um banda de palco, ou seja, a apresentação deles ao vivo é sempre explosiva: descontraídos porém impecáveis musicalmente, alternam sempre momentos de virtuosismo com momentos de alegria contagiante onde a performance é mais importante. Algo que talvez explique a energia entusiasmada seja o histórico dos seus integrantes, os quatro amigos de infância e adolescência. Isso significa que todos eles, em certa medida, compartilham do mesmo background sócio-artístico. Mais do que uma banda jovens amigos que se juntam para tocar música, Do Amor é uma banda de irmãos de alma. Até aí, nenhuma novidade incrível, quantas bandas não começaram assim?

O diferencial é que todos eles têm currículos profissionais extensos e invejáveis: Marcelo Callado é o bateirista considerado por muitos como um dos melhores de sua geração, já integrou a banda Canastra (liderada pelo ex-Acabou La Tequila, Renato Martins), já tocou com inúmeros artistas, além de participar atualmente da Banda Cê, que acompanha Caetano Veloso desde o álbum homônimo de 2006, juntamente com Pedro Sá e seu colega Do Amor, Ricardo Dias Gomes, baixista da estirpe de um John Entwistle (que tinha o grande mérito de segurar a peteca enquanto Roger Daltrey rodava microfones, Pete Townshend destruía na guitarra, para depois destruir a guitarra e Keith Moon alucinava na bateria). Gustavo Benjão é guitarrista, ex-Carne de Segunda, banda da qual participou o último componente do quarteto: Gabriel Bubu, baixista que fez parte da trajetória de sucesso da Los Hermanos. Assim, mais do que uma “banda de amigos”, Do Amor é uma banda de amigos já rodados, experimentados – tanto na vida quanto na música – e que tem na curiosidade musical, a maior das suas qualidades. E esta infinidade de referências artísticas fica clara ao longo deste álbum de estreia do conjunto.

Quem já assistiu algum show, escutou os EP’s Live At Hanói Studio(2007) e Do Amor(2007), sabe que realmente Do Amor é um conjunto musical que em vez de reverenciar com sobriedade ou fazer mimese do seus ídolos ou referências, opta por referir-se a eles sempre de maneira descontraída, alegre mas sempre com o compromisso de apresentar diversos gêneros (do carimbó de um Pinduca a o hard rock de um Led Zeppellin) à maneira deles, sem invencionices. Li recentemente uma resenha do álbum onde o autor, Luciano Vianna, tem uma visão radicalmente oposta à minha: acha que tudo não passa de um grupo de jovenzinhos da zona sul carioca explorando ritmos “exóticos”, com letras fracas e sem um identidade definida. Ora, tudo bem ele não ter gostado da banda e de suas canções – natural, gosto cada um tem o seu – mas, afirmar que a banda não tem identidade é um absurdo até porque, como ele mesmo afirma, Do Amor atira sim, para todos os lados, mas ao contrário do que disse, Do Amor acerta os alvos. Penso que para algumas pessoas é sacrilégio ter numa mesma lista de músicas uma balada jovenguardiana misturada com um carimbó mais um samba-rock, um calipso, um reggae, um axé e um pouco de bom e velho rock’n’roll. Felizmente o mundo não é feito somente de pessoas que não entendem a diversidade, se fosse assim, não teríamos vários Mutantes, Beatles, Zappas, Tom Zés ao longo da história da música.

É claro que existem imperfeições, excessos e deslizes ao longo das 14 faixas que compõem este suposto CD de estreia do grupo. Por exemplo, “Shop Chop” e “Picture My Self”, são ambas canções que particularmente acho dispensáveis na tracklist do álbum, até porque são claramente canções típicas de uma jam session ao vivo, com o calor do público. Mas é uma questão de gosto, portanto indiscutível. Aqui, as duas poderiam ser perfeitamente substituídas por uma canção que sinto que falta: “Cachoeira”, objeto do quadro “12 Horas no Estúdio” da TramaVirtual. O saldo final do álbum é muito positivo, muito bem produzido por Chico Neves, as canções não perderam a espontaneidade, pelo contrário, ganharam uma forte musculatura sonora sem perder a leveza e a fluidez. A grande surpresa fica para a última faixa do álbum quando Marcelo, Gustavo, Ricardo e Gabriel apresentam uma recriação de “Lindo Lago do Amor”, de Gonzaguinha. Inesperadamente genial.

A impressão que fica do álbum é que ele ganha o ouvinte aos poucos, mesmo quem já conhece a banda, já curte o som que eles fazem, não se encanta com ele após a primeira audição, pelo menos essa foi minha experiência. Hoje sou obrigado a escutá-lo diariamente. Vai ver foi porque tomei um banho de água fresca no lindo lago Do Amor.

Agora é esperar pelo álbum em versão vinil. Quem sabe, né? (Mas um CD com encarte  já ajuda)

3 Respostas to “Do Amor, 2010 – Do Amor”

  1. Tiago Dragão Says:

    Pow, Mr. Coelho Raposo, senti falta de você falar do disco. Você tocou nele só nos dois (ok, três) últimos parágrafos. Do pouco que comentou do disco, tive a mesma impressão das duas canções, inclusive ao twittar por não ter gostado de 2 canções, o @doamor ficou curioso em saber quais as duas. Respondido.

    • Tiago Dragão Says:

      E viva a crítica descompromissada. Que o que tem de crítico querendo ganhar espaço alfinetando banda…

      • coelhoraposo Says:

        Realmente poderia ter me alongado mais sobre o disco em si, pensei em fazer um “faixa-a-faixa” (talvez ainda o faça, quem sabe…) acabei me empolgando em falar mais da banda e como este álbum é reflexo da multiplicidade sonora deles.
        Quanto aos críticos, enfim, as pessoas esquecem que até para falar mal tem que ser elegante: um tapa com luva de pelica fere muito mais do que uma cusparada. E ainda esquecem do principal, que a análise, pura e simples. Mas quanto a isso, nenhuma área está imune, né Mr. antropologo? ehehhee

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