Da série: “cartas não enviadas”

Querida Xxxxxxxx,

Que eu tenho uma mente caótica você já deve ter percebido. Mas pior do que ela é o meu coração: ele está sempre perdido em alto mar, se afogando em sentimentos que não sei se são genuínos. Me sinto só, isolado num mundo onde tudo é jogo, todos os passos tem que ser meticulosamente medidos para não pisarmos em ovos, ou na bola. Eu até tento jogar: me visto de cínico, me inspiro em canções, me espelho em personagens de filmes… Mas chego sempre à conclusão de que sou um péssimo jogador.

Contigo talvez tenha sido um pouco disso: tentei te decifrar, ler nos teus olhos, nos teus gestos, no teu sorriso, nos teus convites… No momento em que tinha certeza de que caminhávamos na mesma estrada, tentei vencer a minha timidez. Não consegui. Ouvir um não seria muito doloroso pra mim porque implicaria em não mais compartilhar da tua companhia, da tua voz, do teu olhar penetrante que tanto evito…

Não lido bem com despedidas – sejam elas temporárias ou permanentes. Este ano em especial tem sido duro neste quesito de partidas: queridos e queridas que partiram: uns para outros cantos do mundo, outros para outros planos da existência…

Alguma canção me disse pra ser sutil, mas eu não sei amar sutilmente. Sou inseguro, indeciso e apegado a romances. Pensei que contigo eu venceria meus medos, viveria o romance que tinha estabelecido na minha cabeça. Mas, penso ter lido os sinais de maneira errada. Novamente. Talvez o que eu precise seja parar de querer ler sinais, ler as pessoas. Quebrar a cara ouvindo um “não estou afim” se faz necessário. Mas dói pra caralho!

Viajo agora pensando novamente em você: no que nós não tivemos, nos seus lábios não beijados, nos sonhos não compartilhados, na vida não vivida. Quando eu voltar, um pouco mais serenado, talvez te ligue de novo, convidando-a novamente ao cinema, chamando-a para umas cervejas, para dançar… Sei lá! O que importa é tentar te mostrar que estou aqui, louco para passar meus dedos entre teus cabelos, segurar sua cintura e tocar seus lábios me deixando perder no seu olhar…

Fazer o quê? “Me deu na telha te dar meu coraçãozinho…”

4 Respostas to “Da série: “cartas não enviadas””

  1. julia Says:

    que bonito, menino! nhoooom ;D

  2. ai, meu coração!

    taí um homem versado na antiga arte novecentista do romance epistolar.

    lindo!!

    (me lembra um romance da Jane Austen, “Persuasão”, em que uma carta escrita sob os olhos distraídos da destinatária salva tudo: o amor, o romance e o livro)

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