Confesso que não tenho a menor idéia de como eu cheguei até José Miguel Wisnik. Provavelmente tenha comprado seu disco São Paulo Rio(2000) às escuras (mas lembro que comprei nos idos de 2002 na Americanas.com ou submarino, sei lá). Mas é muito legal essas surpresas que a vida nos guarda. Foi amor à primeira audição. A voz suave, as letras bem construídas, os arranjos incríveis, as participações especiais (Arnaldo Antunes, Elza Soares, Jussara Silveira. Isso sem contar com uma cozinha que traz a créme de la créme). Esse disco me abriu as portas para a sua obra: descobri seu maravilhoso livro O Som e O Sentido(1999 – 2a. edição) ( um livro para músicos e para curiosos que só tocam o bife ao piano), o fenomenal e intimista disco posterior Pérolas aos Poucos(2003), o disco de estréia, José Miguel Wisnik(1992), que não é uma obra-prima como seus irmãos mais velhos mas é muito bacana (e como sempre tem Bocato no trombone, adoro!) e mais recentemente lançou o ainda não lido Veneno Remédi(2008), em que ele fala sobre um tema sempre relegado às páginas de esporte e tratado como assunto menor: o futebol.
Para quem não conhece, ouça aqui uma provinha, na voz de Lady Elza Soares
Comida e Bebida
(Zé Miguel Wisnik/Zé Celso Martinez Correa)
Só duas coisas têm valor na vida:
comida e bebida
comida e bebida
comida é terra
deusa terra
dê-me terra
tua velha conhecida
que você chama
pelo nome que te apraz
pois com comida sólida
ela dá de mamar
ela dá de mamar
ela dá de mamar
aos mortais
agora soma para multiplicar bebida
que o filho de sêmele trouxe divino
do fruto molhado da vinha
embebedando os mortais
e liquidando os seus ais
trazendo o sonho o apagamento
dos endividamentos de cada dia
um deus que aos deuses se dá
um deus que se põe ao dispor
não há melhor drogaria pra dor
a ele que se deve o que se dá e se recebe
o bem que se tem e que se detém
um messias que se bebe
(letra baseada num fragmento de As Bacantes de Eurípedes, traduzido por Zé Celso, Marcelo Drummond, Catherine Hirsche e Denise Assunção)
Pensando bem, acho que o que me levou até Wisnik foram as trilhas sonoras (tem hífen?) dos espetáculos do Grupo Corpo, mais especificamente a de Parabelo(1997) escrita em parceria com Tom Zé. Mas de qualquer maneira, a vida me guardou essa surpresa. Isso é o que importa.
ps. isso era para ser um post sobre os excessos e os bons ares que sopraram nesse fim de semana em minha vida, mas isso fica pra depois.